UM DEDO DE PROSA - E a quaresma chegou! - a tentação da carne
Já sem a aura de mistério, da superstição, das proibições e do temor do pecado que tanto a marcavam no passado, a quaresma, para os cristãos mais carolas, continua sendo um momento de reflexão e recolhimento, jejum e abstinências diversas, inclusive sexual, da parte dos mais tradicionalistas. Claro que hoje já não há tanto rigor como antigamente, mas alguns ainda costumam ficar todo o período da quaresma sem comer carne vermelha, enquanto outros, menos radicais, fazem tal abstinência só às sextas-feiras, restando ainda os mais folgados que só jejuam de carne na Sexta-feira Santa.
Também naquele tempo havia os descrentes como Mario, que só não comia carne no almoço de Sexta-Feira Santa porque Severina, sua mulher, não fazia e não o deixava fazer pra não dar mau exemplo aos filhos. Pior do que o Mario, porém, era sua irmã mais velha. Crente fervorosa e sempre com um versículo na ponta da língua, ela esquentava o tamborim da intolerância já no Carnaval ligando o alto-falante da Igreja Batista no mais alto volume e despejando hinos religiosos na cabeça dos foliões para concorrer com as músicas profanas dos carnavalescos.
Fiel ao texto bíblico - ''Pecado é o que sai e não o que entra pela boca'' - quando a quaresma chegava, ela, além de comer carne todo santo dia, costumava convidar algum casal bem carola da cidade para almoçar em sua casa às sextas-feiras e, pra sacanear, fazia carne de todo tipo - frita, assada, cozida, ensopada - e bicho - boi, porco, galinha - algumas acompanhadas disso ou daquilo, mandioca ou milho, e com um cheiro de assanhar as lombrigas.
Sabendo de antemão qual a comida preferida dos convidados, ela ia oferecendo cada prato - ''Vai um bife a cavalo aí, dona Cotinha, eu sei que a senhora adora?'' - e se deliciava ao ver a vontade estampada - ''Este frango a molho pardo eu fiz pensando no senhor, seu Zezinho, não vá me desfeitear, hein!'' - na cara de alguns, mesmo suas bocas dizendo não.
A festa ficava completa, então, quando marido e mulher brigavam porque um dos dois ameaçava quebrar o jejum, ocasião em que ela atiçava o transgressor a consumar a ameaça. E a sua ''pegadinha'' causava mais constrangimento ainda às visitas quando gritava para uma das filhas: ''Juriclê, frita um ovo pra dona Cotinha que ela não gostou da minha comida!''
Mas, se a quaresma toda era movida à superstição, era na Sexta-Feira Santa que o bicho pegava. E bicho aqui não é no sentido figurado não, estamos falando é de lobisomem mesmo - este monstro peludo, e temido que habitava o imaginário e a crendice popular de então, hoje tão fora de moda quanto as proibições da quaresma e seus ''causos'' sem pé nem cabeça que serão contados na semana que vem.
Apolo Theodoro
No próximo sábado: outras proibições e ''causos'' da quaresma





