UM DEDO DE PROSA - Começou o outono ou acabou o verão?
Quanta maldade com as crianças... Todo começo de janeiro, logo que meu pai recebia o pagamento por vender sua força de trabalho, minha mãe nos dava um bom banho e colocava nossa melhor roupa. Simples, bem simples, mas era roupa de ir à missa de domingo. Todos já sabíamos: era dia de fazer a compra do mês no supermercado da cidade.
Como era o caçula - oito anos e o mundo inteiro ao redor -, ela pegava minha mão, apressava o meu irmão do meio - um adolescentezinho de 13 anos - e revisava com minha irmã mais velha - oito anos mais vivida que eu e brava feito pimenta - se não estávamos nos esquecendo de nada. Dinheiro, pouco é verdade. Desligar o ferro de passar e a torneira do gás. Fechar a janela da cozinha. E trocar a água para o cachorro. Era sempre assim.
Como era início de um novo ano, eu já sabia também que junto com o açúcar, o óleo, o sal e a farinha - coisas que não se produzia no sítio -, vinha enroladinho no canto da caixa um calendário, que lá em casa tinha o nome de folhinha e ficava sempre no mesmo lugar: pendurada em um prego atrás da porta da cozinha. Confesso que nunca gostei muito desse brinde. Por um motivo crucial: no mês de março, o dia 20 sempre estava pintado com uma cor diferente anunciando o ''começo do outono''.
Eu explico. Na escola, a tia Marina já tinha ensinado sobre as estações do ano. Levou um desenho lindo do Sol e outro da Terra e explicou que no outono a luz solar ficava mais fraquinha para a gente. Por isso, nós e as árvores sentíamos mais frio. E só iria fazer calor de novo na primavera.
Mas como um moleque de sete anos, que lia devagar e ainda tremia os dedos para escrever meia dúzia de palavras, eu queria só o sol. Na minha cabeça de menino, não era o começo do outono. Para mim, a data de 20 de março marcava sempre o fim do verão. E que tristeza quando ela chegava, porque a gente - homens e natureza - sentia na alma a mudança.
Fruta para pegar no pé? Basicamente laranja - aí talvez a única coisa que eu gostava do outono. Banho de rio? Nem pensar. No campinho do bairro, a grama ia raleando. Conforme ia findando o dia, as solas dos pés descalços ficavam cada vez mais geladas pelo contato com a terra fria. A pele das canelinhas finas, coitada, acabava toda estragada. Nenhum menino queria ficar no gol. As boladas ardiam em dobro. Na beira da estrada que passava do lado, as árvores iam ficando nuas e os passarinhos voltavam para casa cada vez mais cedo.
Agora, admito, tenho saudades daqueles outonos. Da minha mãe fritando bolinho para tomar com leite quente. Ainda a escuto brava comigo por ser noite e eu de bermudas curtas e pés no chão. Do ralado no joelho quando escorregava na grama seca. Da neblina fina que cobria as manhãs a caminho da aula. Da sopinha com legumes servida na hora do intervalo. Isso tudo também era bom demais.
Hoje, na cidade, verões e outonos entram e saem praticamente ignorados. A temperatura cai, mas no escritório nem se percebe o frio. De dentro do carro, o vento que lambia nossa face da infância, passa ao largo. Sem incomodar. Nossos pés adultos não encontram mais a terra. Nem temos tempo de olhar as árvores e suas folhas caídas. O calendário segue outro ritmo. Um ritmo que dispensa a própria passagem do tempo.
Luciano Augusto, jornalista da FOLHA DE LONDRINA.





