UM DEDO DE PROSA - Cobra coral no ninho do tico-tico!
Sabe aquela música antiga...
Não mete a mão em
buraco do tatu,
que é muito perigoso,
é preciso ter cuidado...
Lá dentro pode ter
uma cascavel
ou um urutu
esperando com
bote armado...
Pois é, o Antonhadão tinha um camarada no sítio, o Nico, que sabia de todos os perigos que rondavam os locais úmidos, habitat de animais peçonhentos e insetos perigosos. Sabia, mas não conseguia conter a sua curiosidade. Um dia chegou bem perto da caixa de marimbondo, aqueles bem vermelhos, meio cor de fogo. Aquilo tem um ferrão doído de dar íngua na pessoa. Levou uma picada no lábio inferior que formou aquele beiço de potranca. O povo morria de rir. Dava para colocar uma xícara sobre aquela beiceira parecendo um pires, uma plataforma. Nico também tinha a mania de meter a mão nos ninhos de tico-tico e rolinha. Você sabe aqueles passarinhos que fazem o ninho na copa de um Pinheiro ou mesmo num pé de flor, na cidade? Então, elas fazem ninhos também no cacho de banana. Antes da fruta amadurecer os filhotes nascem e fogem.
O Nico tinha mania de pegar um ovinho daqueles e ficar olhando. O povo dizia que ele chocava o ovinho na mão. Espiava, espiava na redondeza e se ninguém estivesse vendo, ele apertava os ovos. Indelicado e meio desajeitado, catava o filhotinho pelado com aquelas mãos grossas e sujas. Nico era o verdadeiro pai-do-mato.
Eu ainda quero vê o Nico enfiar a mão num buraco de tatu. Tudo ele qué examiná! - dizia dona Genoveva, uma gordacha, maldizente que só ela.
Não foi no buraco de tatu que a sorte negou fogo ao Nico. Ele levou a dele foi no ninho da rolinha mesmo. Uma cobrinha coral, daquelas venenosas, invadiu (invadiu não, ocupou o local, como diz o MST) e quando o Nico levou a mão, ela cravou-lhe as presas no pé da unha do dedão. Picou com tanta força que o cara perdeu o fôlego e o polegar direito. No hospital, o doutor só evitou que o veneno circulasse até o coração ou a cabeça. Voltando pra casa, Nico tentou de tudo: urina de égua, leite de mamão de corda, benzimento, benzedura. Não teve jeito.
Vira e mexe, ele pega a violinha ensebada de tão velha e canta:
Não mete a mão no
buraco do tatu,
que é muito perigoso,
É preciso ter cuidado...
Até sábado!
H. Ramos Bezerra





