Outro dia, aqui mesmo no nosso ''dedo de prosa'', foi relembrado o tempo em que os noivos ''roubavam'' as noivas para casar. Coisa nostálgica e boa, pois havia a fuga sim, mas tudo era feito dentro das leis dos homens e da igreja, com todo o respeito, e no fim das contas a família da noiva aceitava o genro e tudo ficava em paz.
Então, eu pensava que esse negócio de roubar a noiva ou fugir para casar já não acontecia mais. Besteira. Continua acontecendo. É só andar por esse Paraná para ficar sabendo de cada história. Nesta semana, eu e o editor de fotografia Sergio Ranalli fomos lá para a Ilha do Superagui, no Litoral, para fazer uma reportagem que a FOLHA publica hoje, em seu caderno especial de meio ambiente.
Por lá, o nosso guia e barqueiro foi o Flávio, um bom camarada, pescador e filho de pescador, morador da Vila de Barra do Superagui, a maior da ilha, onde residem umas mil pessoas. Ele casou há pouco tempo, faz três anos, e teve que fugir com a noiva para conseguir a permissão dos pais dela. Veja a história:
Rapazote, 16 anos, ele se encantou por uma das mais belas moças do lugar, de apenas 15 anos. Amor correspondido. O namoro começou. As fofocas também. Lugar pequeno, todo mundo fala da vida de todo mundo. Foi um alvoroço quando chegou aos ouvidos dos pais da menina, evangélicos, que Flávio havia pulado a janela do quarto dela em uma noite qualquer.
Não adiantou nada o casalzinho dizer que era tudo invenção, mentira. A menina levou uma surra e o namoro estava proibido. Apaixonado, o rapaz se apressou em dizer que, ora, se havia a suspeita de que ele maculara a honra da moça então casava e pronto. Pediu até para seu pai falar com o pai da moça. Conversa de homem para homem, de pescador para pescador. Não adiantou. Com razão, os pais da menina tinham a convicção de que a filha era jovem demais para casar. Além disso, ela era essencial no trabalho familiar de limpar os peixes e camarões pescados pelo patriarca.
Mas se ''o amor é fogo que arde sem se ver'', como já escreveu Camões, eles não conseguiram ficar um sem o outro. Flávio decidiu: fugiriam. A moda é levar a noiva na garupa do cavalo, mas como cavalo é artigo raro na ilha, ele usou a garupa da bicicleta mesmo. Pedalou 12 km pela praia deserta, indo muito além da casa de uma velha caiçara que costuma dar abrigo a pombinhos fugitivos, o primeiro lugar que os pais das meninas procuram visitar para recuperar as filhas.
Como não dá para se esconder muito tempo numa ilha, o casal foi encontrado três dias depois. Mas dessa vez não teve surra. Os pais de ambos viram que a coisa era séria e aprovaram o casório.
Hoje, todos vivem em paz como uma boa família. E os pombinhos fugitivos já são pais de uma bela menina, de dois anos. Será que um dia ela também fugirá para casar? Só o tempo vai dizer...
H.Ramos Bezerra, por Wilhan Santin - repórter da FOLHA. A prosa de hoje é uma homenagem a todo romântico - à moda antiga ou contemporânea - que não mede esforços para ter nos braços a pessoa amada.

mockup