UM DEDO DE PROSA - Carnaval na roça
Na roça, todo dia tem carnaval entre a bicharada. Antes mesmo da lua ir embora, a passarinhada começa a esquentar os gogós para mais um dia de samba geral. E como todo mundo quer aparecer bem na foto, ninguém se faz de rogado. Logo que o sol ilumina a passarela, todos já estão a postos para fazer bonito na avenida rural.
Puxando o samba-enredo das matas vem a arara-azul, bem-te-vis, pintassilgos, pardais e quero-queros. Cada um no seu tom, compõem a sinfonia que transforma a vida rural. Os pica-paus completam a harmonia cutucando os troncos das árvores e transformando-os em instrumentos de percussão. Entoando a letra não poderia ser outro que não o tagarela papagaio. Compõe a canção como quem faz uma declaração de amor.
As aves, ainda, têm outras funções na Grêmio Recreativo Escola de Samba do Sítio. A garça branca, por exemplo, empresta sua soberba elegância ao cargo de porta-bandeira desse carnaval. Carrega o estandarte com delicadeza e firmeza, da mesma forma sutil que apalpa com as patas esguias os banhados em busca de alimento. Como seu par - valorizando ainda mais a folia na roça -, ele mesmo: o veado campeiro e sua nobreza de movimentos. As siriemas vêm com tudo como as passistas mais habilidosas do pedaço. No samba do crioulo doido por que não misturar aí os serelepes saguis e quatis? De galho em galho, eles explodem em diversão e alegria logo de manhazinha.
Voltando aos ritmistas, a vara de porcos empresta o ''grave'' para a afinação do conjunto. O cavalo e o jumento contribuem com precisos relinchos. Na ala mirim, as potrancas vão aprendendo os segredos dos pais sambistas. A onça parda, rainha desta bateria, enfeitiça a arquibancada com sua felina feminilidade. Não menos atraentes, as gatinhas da área disputam a atenção como musas deste animado carnaval. O mestre do grupo, o galo mais respeitado do galinheiro, posiciona as esporas e enche o peito para todos comandar.
Como baianas, outra honrosa função em qualquer escola de samba, as vacas leiteiras. Giram para lá e para cá, conferindo a necessária tradição à agremiação rural. Com suas tetas fartas de leite, não deixam faltar animação na festa.
No camarote, lugar de honra para peões, vaqueiros e demais homens e mulheres do campo. São eles que, ''dia sim, dia também'', têm o privilégio de compartilhar com os bichos a monumental celebração que é o carnaval na roça.
Luciano Augusto é jornalista da FOLHA





