Datilografia. Hoje - em época de internet, notebook, tablet e outras máquinas - lembra mais um palavrão. Há duas décadas, no entanto, era sinônimo de bom emprego em repartição ou escritório. Quase uma garantia de alcançar aquela ocupação desejada, principalmente pelas mães sempre tão zelosas com o ''futuro dos filhos'', que para mim se resumia em ficar do lado detrás de uma mesa, rodeado por telefone, muitos papéis, talvez uma calculadora e uma onipresente máquina datilográfica.
Pois aí está a pista para quem ainda não desvendou o mistério da datilografia: é a habilidade de escrever usando uma máquina de... escrever. Aprender tal técnica não era tarefa nada fácil. Comecei a tomar aulas na cidade vizinha, pois onde morava não tinha curso de formação de datilógrafo. No pensamento da roça, moderno para época, filho que estudava tinha que aprender a usar aquela ferramenta. ''É coisa de gente sabida'', repetia minha mãe. ''É coisa de quem tem preguiça da enxada'', retrucava meu avô, cheio de desconfiança da geringonça.
Discordâncias à parte, lá tinha eu que ir às lições duas vezes por semana. A apreensão era alcançada pela repetição exaustiva de cada tarefa. A primeira lição: asdfg, acessando as teclas com cada um dos dedos da mão esquerda, exceto o polegar. Repetia-se a mesma operação tantas vezes quanto fossem necessárias para preencher todo o sulfite. Exaustivo e enfadonho. E pior. A mesma tarefa era exigida para as letras em MAIÚSCULA. Tudo, com o máximo de três erros por folha.
Para quem nunca tinha chegado perto de um bicho daqueles, era uma missão inglória. Ajeitar os dedos nas teclas, acionar músculos e tendões e disparar, uma a uma, cada letra. Tudo bem difícil. Mais ainda porque o curso todo durava quatro meses. A última lição era um teste às cegas, e cronometrado, de um trecho de Machado de Assis. Um clássico.
Em casa, ganhei uma pequena máquina portátil. Fragilzinha e barulhenta. Quando começava a praticar, as galinhas se debatiam nos poleiros, os cachorros acompanhavam o ''tec, tec, tec'' atordoados. A gata, velha e impaciente, fugia da sala. Minha mãe dava umas espiadelas. O barulho a irritava mas aguentava em nome do futuro do aprendiz. Terminado o curso, deixei a plantação de alho do meu pai e consegui colocação como contínuo em um banco.
Durou muito pouco: descobri que os números não eram meus companheiros favoritos. Mas as antigas lições de datilografia me ajudaram bastante quando fiquei frente a frente com um computador. Tanto na técnica quanto na afeição pelas palavras. Ainda hoje, quando escrevo, muitas vezes escuto o barulho das teclas ferindo à tinta o papel virgem e construindo, toque após toque, as palavras, até completar o que se quer expressar.
Luciano Augusto, jornalista da FOLHA DE LONDRINA

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