UM DEDO DE PROSA - Aos pioneiros com carinho
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de dezembro de 2008
Apolo Theodoro 
Quando Londrina faz aniversário me vem umas lembranças tão boas que hoje eu vou lembrar um pouco delas, só pra gente matar saudade daquele tempo que os mais velhos ainda têm na memória. Quem diria, parece que foi ontem, lá se vão 74 anos. Eu era um moleque de nove anos de idade quando minha família chegou aqui em setembro de 1933, cerca de um ano antes de Londrina
virar cidade.
Nunca me esqueço da gente indo de caminhão para a gleba de cinco alqueires que meu pai havia comprado três meses antes, quando veio verificar se Londrina era mesmo tudo aquilo que a italianada do interior de São Paulo comentava; se a terra era realmente vermelha, rossa como os colonos italianos diziam.
Londrina e meu pai foi uma paixão à primeira vista. Ele se encantou com a mata densa, repleta de madeiras de lei, e muito mais com a terra vermelha, muito melhor do que as do estado de São Paulo. Gostou tanto do que viu que não só desembolsou seis contos de réis para a compra do lote, como já mandou construir um rancho de
palmito antes de voltar pra buscar a gente.
Foi a primeira terra que o pai comprou na vida depois de 11 anos de trabalho como colono de café no interior de São Paulo. Me lembro até hoje daquela manhã, bem cedinho, ao nascer da aurora, quando a gente pegou o picadão do Heimtal (hoje avenida Duque de Caxias) em direção à nossa gleba; me lembro também da cara animada e dos gritos de admiração do pai lá da cabine:
Olhem, meus filhos, aquela peroba, nem 10 homens juntos conseguem abraçar! E aquela figueira, nossa senhora como é grande! Pare o caminhão, Caetano, que beleza! Terra que tem figueira é terra boa, vamos descer, quero ver essa figueira de perto. E assim, parando aqui e ali, bebendo água
limpinha no córrego Bom Retiro, fomos aprendendo, pela boca do pai, os nomes de todas aquelas árvores enormes: Olha lá um cedro, aquela outra é um marfim, olha uma canela e como tem palmito nesta terra, benza Deus!
O pai foi nesse encantamento até chegar à nossa gleba. O rancho de palmito já estava pronto, só faltava janela, porta e fogão. Ah, como esquecer das latas de 20 litros cheias de banha branquinha e carne de porco; dos sacos de milho, feijão, arroz e café empilhados num canto do rancho; do varal de galinhas e frangos amarrados pelos pés... No meio do mobiliário veio até uma lamparina e, por cima da mudança, um cachorrinho chegou latindo em Londrina.
No dia seguinte, nem bem o galo cantou, os homens, com foice serra, machado e facão, foram derrubar mato enquanto a mãe arrumava um espaço pra horta em volta do rancho. Com as mulheres trabalhando em casa e os homens cuidando da plantação, em pouco tempo a gente já estava comendo alface, couve e almeirão e, na roça, três meses depois do inicio da derrubada, as primeiras covas de café eram abertas no espigão.
E o forno de barro de onde saía broa de milho, pão, frango e leitoa assada? É, naquele tempo era assim: porco virava lingüiça, barrigada sabão. E se a soda faltava, ora se não, a mãe usava cinza: do fogão ou da palha de feijão. Essa era a vida no sertão. Trabalhando feitos loucos, do nascer ao
pôr-do-sol, economizando cada tostão, minha família e inúmeras outras famílias pioneiras venceram a empreitada assumida e ajudaram londrina a crescer e prosperar. A todos esses homens e mulheres, que se embrenharam no sertão para, juntos, começar uma nova vida e construir uma cidade, dedico este dedo de prosa.


