O médico veterinário Adélio Borges, do Departamento de Economia Rural (Deral), da Seab, faz um complemento à análise sobre a valorização da arroba do boi publicada por esta coluna na semana passada. Diferente do produtor José Fontes, o veterinário não vê na reação do preço do boi uma nova ameaça à pecuária do Paraná, como ocorreu no evento aftosa-que-não-existiu. Em sua avaliação, apesar de um panorama mais favorável, para ser rentável ao pecuarista, na atual cotação do dólar, o preço do boi gordo precisa variar entre R$ 65 e R$ 70/arroba. Esta semana, o preço do boi gordo variou entre R$ 57 e R$ 60/arroba.
  Para ele, esses valores reforçam a opção dos criadores em vender vacas ao invés de bois terminados. ‘‘O desconforto do frio provoca perda de peso. Na vaca, questões fisiológicas e hormonais, fazem com que esta perda seja ainda mais rápida que no boi’’, explica. Como a diferança nos preços dos dois animais está abaixo do que se considera convencional, é melhor segurar bois e se desfazer das fêmeas.
  O cenário está complicando ainda mais a reposição dos bois no pasto. ‘‘Não se encontram bezerros em idade de desmame no Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. Ainda é possível encontrar alguma coisa em Minas Gerais e Rondônia. Mas, aí, o custo de transporte encarece o animal e piora o que se chama relação de troca ideal (o normal é que um boi gordo resulte em 2,2 bezerros). Nessa troca, melhora genética nem dá para se discutir.
  Sobre a aftosa, o Governo do Estado, segundo Borges, seguiu uma orientação do Ministério da Agricultura para confirmar a doença. Explicando melhor, o veterinário diz que, há três anos, a Organização Internacional de Saúde Animal (OIE) havia mudado as regras nas comunicações de casos da doença. A suspeição de um foco passou a ser considerado caso confirmado. Pela recomendação seria mais fácil assumir o caso e que no máximo em seis meses, as exportações estariam liberadas. ‘‘As seqüelas estão aqui até hoje’’, lamenta. O veterinário destaca ainda a cartelização do setor. Nessa mesma época, os preços já estavam baixos devido a manobras de seis ou sete grandes frigoríficos para cumprirem contratos de exportação feitos quando a relação dolár/real era de US$ 1 por R$ 2,70.
  O pecurista, defende Adélio Borges, não pode ser tratado como ‘‘chorão’’. ‘‘Nessas condições, pecuarista que não chora, não tem tradição na atividade. É um aventureiro’’, conceitua. Ele credita à essa realidade de mercado a opção de produtores paranaenses no norte e noroeste em trocar os pastos pela cana, ou por eucalipto e pinus, como ocorre no centro-sul.
  Mas ele vê uma ‘‘luz no fim do túnel’’. ‘‘Para garantir alguma rentabilidade é preciso que o pecuarista esteja atento ao mercado. Além do Deral, temos consultorias eficientes em condições de orientar sobre o melhor momento e condições de venda’’, orienta.
  Em agosto, nos dias 14 a 16, durante um congresso nacional sobre integração lavoura-pecuária, uma anteprojeto deve ser elaborado pelo setor em busca de apoio do governo federal, como verbas para reanimar a atividade. ‘‘A pecuária ficou por 25 anos sem linhas específicas de crédito’’. Nos últimos dois anos, segundo ele, recursos muito pequenos foram liberados. Ficamos na espera.

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