Na roça, o animal resultante do cruzamento do cavalo com jumenta é renegado a um papel, digamos, secundário. Aos burros e mulas sobram sempre as tarefas mais duras, pesadas, que demandam mais força física do que outra coisa. Assim também era no sítio da minha infância.
Lá, os muares nunca tinham chance de mostrar outros valores que não fosse puxar sacarias, arados e outras cargas. Aos cavalos e éguas cabiam trabalhos mais nobres. Só eles puxavam a charrete que levava a família à missa ou a algum outro compromisso social. Eram também os que partiam atrás de alguma rês desgarrada que se perdia nas pastagens e não conseguia achar o caminho de volta para o curral. Quando chegava visita e queria percorrer a propriedade, o animal encilhado era sempre um cavalo. O burro nunca.
No estábulo, as éguas, potros e cavalos eram acomodados sempre nas melhores baias. Todas individuais. Com direito a coxo com capim e água trocados todos os dias. As instalações tinham janelas voltadas para a sede, de onde se podia observar e vigiar os animais.
Os muares, por sua vez, eram colocados num único espaço nos fundos do estábulo. Tinham comida boa e água limpa mas precisavam manter o espírito de grupo para que um não invadisse a privacidade do outro. Ficavam confortáveis mas não tinham nenhum luxo.
Mas ainda que equinos e muares tivessem tratamento diferenciado, todos recebiam nomes carinhosos ao nascer. Era uma distinção corriqueira, mas tradicional. Os primeiros sempre recebiam nomes mais imponentes. Égua era chamada de Rubi, Menina, Boneca... Cavalos eram batizados de Presidente, Tufão, Corisco... Já as mulas, coitadas, tinham apelidos bem menos nobres. Chamavam-se Tristeza, Bolinha, Magrela... Com os burros era a mesma coisa: Neguinho, Pilão, Safado.
Como era costume todos os dias assim que amanhecia, os animais eram retirados do estábulo para irem comer o capim que crescia no pasto ao lado. Caso fosse preciso, um animal era escolhido para alguma tarefa: se pesada, ia um burro; caso contrário, lá estava o cavalo, todo pomposo.
A situação permaneceu inalterada por muitos anos. Até que numa bela manhã de sábado, a coisa foi revertida em favor da mula Zezé. O alazão Corisco foi selado para puxar a charrete que levaria minha avó e tias ao batizado do filho recém-nascido de um vizinho de porteira. Ele nem tinha principiado a andar quando refugou, raspou as patas dianteiras no chão e empinou como nunca tinha feito. As mulheres, coitadas, levaram um susto danado. E o cavalo não parava quieto. A causa: uma cascavel que sacolejava o guizo e armava o bote.
Temendo pelo pior, a mula Zezé deu uns três passos para trás, acelerou e saltou feito puro sangue a cerca de arame. Partiu em direção ao perigo e num golpe certeiro atingiu com a pata dianteira esquerda a cabeça da serpente peçonhenta.
Desde então, a mulinha passou a ter tratamento de rainha. Ganhou ''casa'' própria no estábulo, com direito a janelinha. Só não aceitou puxar a charrete. Não tinha o costume. Mas passou a acompanhar a família, levando sempre uma dupla de crianças no lombo.
Luciano Augusto é jornalista da Folha de Londrina

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