Caro amigo, olhe além da cerca, para os vizinhos. Dê uma reparada boa. No meu caso, tem um italiano à esquerda, um japonês à direita e, lá no alto do espigão, um alemão. Quero dizer, os vizinhos todos são descendentes de gente que veio de outros países para o Norte do Paraná, filhos ou netos.
Quando a Companhia de Terras Norte do Paraná começou a colonização, gente de tudo quanto é canto decidiu desbravar a terra vermelha. Naquele tempo, a Europa ainda ressentia a Primeira Guerra Mundial, os efeitos da grande crise de 1929 e via se desenhar a Segunda Guerra. Os japoneses já haviam chegado no começo do século 20 - o Kasato Maru aportou em Santos em 1908 -, ganharam dinheiro em São Paulo e compraram lotes no Paraná.
Além disso tudo, a subsidiária da Companhia de Terras era inglesa, sabia fazer propaganda na Europa e tinha que conquistar clientes em todos os lugares, afinal tinha nada menos do que 515 mil alqueires paulistas para colonizar. Pense bem, 515 mil alqueires. É terra ou não é?
Bom, estou dizendo tudo isso para provar que somos uma mistura de raças, de gente. Não só no Norte do Paraná, mas no país todo. Contudo, aos poucos todos fomos nos tornando brasileiros. Pegamos amor ao chão que pisamos e plantamos. Quero ver você dizer que não fica cheio de orgulho quando outros países elogiam a agricultura do Brasil. Aprendemos a amar a nossa pátria e até a produzir por ela.
Agora, em tempo de Copa do Mundo, ficamos ainda mais patrióticos. Não é? Acho interessante ver gente de todos os sobrenomes, do Barbeatto ao Tanaka, passando pelo Heim e pelo Silva, torcendo para o Brasil na frente da televisão.
E olhe só, agora torcemos, em qualquer lugar, mesmo aqui no sítio que fica numa baixadinha, com imagem bonita, colorida, vinda da parabólica. Uns têm até TV por satélite, pagando assinatura. Meu avô ouviu o Brasil ganhar a Copa de 1958 carpindo café, com o radinho pendurado na cintura. Não havia TV e nem tempo a perder. Parar a lida para ver futebol era impossível.
Já meu pai, rapazote, vestiu roupa de missa para vir a Londrina ver uma televisão, logicamente preto e branco, pela primeira vez em 1970, no dia que Pelé e companhia ganharam o tri.
Já naquele tempo, quando muitos ainda eram naturais de outros países ou da primeira geração de descendentes, a torcida pelo time canarinho era ferrenha. Há algo no Brasil que nos faz apaixonar por ele. Na imensa maioria, somos gente trabalhadora, descente, amistosa, carinhosa... e feliz.
Portanto, vizinho, não tire a bandeirinha aí do telhado quando a competição lá na África do Sul acabar. Vamos ser brasileiros até o fim. Acredito que este país pode ser mais decente - lindo já é -, com ou sem o hexa.
H. Ramos Bezerra

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