UM DEDO DE PROSA - A bola e os sonhos que ela carrega
Hoje tem jogo da seleção brasileira de futebol. Há quem diga que a partida contra a Holanda tem gosto de revanche, em referência à eliminação do escrete canarinho na Copa de 2010. Por meu lado, prefiro recordar em tom mais leve, ainda que pouco signifique para alguém mais além de mim. É inegável que todo menino sonhou e sonha em estar perfilado num campo com a camisa verde e amarela com escudo no peito, ouvindo o mundo inteiro acompanhar o Hino Nacional.
Quando moleque, passava tardes inteiras com alguns amigos batendo bola em campinhos improvisados. Às vezes, a turma se reunia num cantinho do quintal de algum menino do grupo. A gente também entrava escondido no pátio da escola, onde havia um pequeno campo que servia para as aulas de Educação Física. Tinha que ser sem ninguém saber, pois a diretora não gostava de jogo fora de hora. ''Estragava a grama'', reclamava.
O mais comum, no entanto, era a turma se reunir no meio da tarde no campinho que ficava ao lado da venda. O gramado era bem judiado porque a molecada teimava em brincar alí todo santo dia. O dono do comércio ralhava sempre, mas a gente era igual pernilongo: bem difícil de espantar. Ele também não emprestava a bola nova, só usada em dia de jogo de domingo. O jeito, então, era improvisar com o que se tinha à mão. A preferida era uma pelota velhíssima, com o couro todo desbeiçado, que pertencia a algum piá o qual nem me lembro direito.
E a rotina era quase sempre a mesma. Divididas as equipes - com e sem camiseta - a gente chutava a bola e junto com ela iam todos os nossos sonhos de moleque. Até parecia que no fim da parábola que ela desenhava no ar estaria um pote de ouro. Só que em vez de riqueza, ela nos dava a alegria do gol, de um passe na medida para o companheiro ou mesmo da defesa feita já quase sobre a linha do travessão.
Diferente mesmo, era só em dia de jogo da seleção. A vendinha do sítio continuava sendo o ponto de referência, mas só porque tinha a única TV - uma Telefunken preto e branco - da região. É bem verdade que, naquela época, quem morava no meio rural era mais acostumado com o radinho de pilha. Assim era lá em casa. Quando o Brasil jogava, todo mundo se reunia na sala, meu pai aumentava o volume ao máximo e a imaginação viajava no mesmo ritmo da voz do narrador.
E eu queria ser a seleção inteira. Era mágico desenhar na mente os dribles de Sócrates. Avançar, com o pensamento, rumo ao gol adversário à moda de Zico. Lançar-se no nada, feito Waldir Perez, em busca da bola que triscava a trave canarinho. Ao contrário de hoje, naquela época ninguém pensava em dinheiro, fama ou qualquer outra coisa do tipo. Todo menino queria só continuar sonhando aquele sonho inocente de criança, achando que era invencível.
Luciano Augusto, repórter da Folha de Londrina





