Quando os estudos recomeçavam, em agosto, a ansiedade tomava conta de todos na escola. Nesta época, três vezes por semana, a gente se reunia no pátio para afinar os ensaios para as celebrações da independência, em 7 de setembro.
Como já era tradicional, todos os alunos do município - inclusive ''os da roça'', como éramos chamados pelos ''da cidade'' - eram reunidos na avenida principal da cidade. No palanquezinho armado na praça ficavam as autoridades: prefeito, vereadores, diretores, delegados e os militares.
Nossa fanfarra era bem pequena e tinha muito poucos recursos. Os instrumentos se resumiam a duas ou três caixas, um surdo, alguns chocalhos feitos com latinhas usadas e mais nada. As roupas também eram bem humildes: feitas em tecido azul e branco dos mais baratos, sem muito brilho e com franjinhas simplórias. Nas mãos, levávamos pompons verdes e amarelos. Cada um calçava o que tinha disponível em casa.
Era meados dos anos 1980. Oficialmente, o regime militar que perdurava desde 1964 já tinha acabado. No entanto, os compromissos cívicos ainda se mantinham muito fortes na cultura escolar. Tanto que o retrato do último presidente fardado, João Batista Figueiredo, continuava pregado acima do quadro negro em todas as salas. O hasteamento da bandeira também era rotina obrigatória. O hino nacional era cantado todos os dias, antes do início das aulas. Tínhamos que ficar em fila - meninos de um lado e meninas de outro -, colocar a mão no lado esquerdo do peito e soltar a voz em alto e bom som.
Para a apresentação de 7 de setembro, além de tudo isso, ensaiávamos também o Hino da Bandeira e o Hino a Caxias, o patrono do Exército. Tudo era organizado demorada e detalhadamente para que o desfile não fosse prejudicado pela falta de ensaio.
Toda a cidade parava para ver a parada militar passar na avenida. Famílias inteiras vestiam suas melhores roupas em sinal de respeito à pátria. Muitos se emocionavam ao recordar outros tempos.
Quanto à nós, protagonistas do dia, passávamos diante da multidão dando poucos acenos e risos. ''Concentração'', repetia a professora encarregada pela turma. Era um dia tenso, agitado, com cheiro de obrigação. Roça e cidade, ainda que num único dia, se uniam para celebrar as cores do Brasil. Para a gente, crianças que éramos, não entendíamos muito para que servia tudo aquilo. Sabíamos que era pela pátria, mas não tínhamos a noção exata de quão significativo para o País era todo aquela representação.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA

mockup