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Londrina

Folha Rural

m de leitura Atualizado em 05/03/2022, 07:05

UEL desenvolve vacina inédita contra toxoplasmose suína

Para sair do papel, indústria deve se interessar pela medida de prevenção que garantiria carne mais segura

PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de março de 2022

LUCAS CATANHO - Especial para a FOLHA
AUTOR autor do artigo

Foto: iStock
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O professor da UEL João Luis Garcia iniciou os estudos da vacina há 20 anos O professor da UEL João Luis Garcia iniciou os estudos da vacina há 20 anos
O professor da UEL João Luis Garcia iniciou os estudos da vacina há 20 anos |  Foto: ARQUIVO PESSOAL
 

A UEL (Universidade Estadual de Londrina) está desenvolvendo uma vacina inédita que promete ser o primeiro imunizante contra a toxoplasmose em suínos no mundo.

Os estudos na instituição tiveram início ainda no final da década de 1990, em virtude do doutorado de João Luis Garcia, professor associado do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva da UEL, cursado na USP (Universidade de São Paulo). “A partir daí fomos aprimorando as pesquisas e integrando novas tecnologias”, relata.

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O docente explica que hoje há uma vacina que utiliza o parasita vivo para imunizar ovinos e caprinos em algumas regiões do mundo (Reino Unido, França e Nova Zelândia), com o intuito de diminuir os abortos nessas espécies, mas uma vacina para suínos ainda não foi criada.

“O potencial de produzir uma vacina para diminuir a formação desse parasita nas carnes suínas seria importante, pois esta é uma das maiores vias de transmissão para o homem, que pode ser contaminado se ingerir a carne crua ou mal cozida”, explica.

Os estudos sobre a vacina contra toxoplasmose em suínos estão sendo possíveis graças ao apoio financeiro das entidades que fomentam a pesquisa no Paraná Os estudos sobre a vacina contra toxoplasmose em suínos estão sendo possíveis graças ao apoio financeiro das entidades que fomentam a pesquisa no Paraná
Os estudos sobre a vacina contra toxoplasmose em suínos estão sendo possíveis graças ao apoio financeiro das entidades que fomentam a pesquisa no Paraná |  Foto: iStock
 

Os estudos sobre a vacina contra toxoplasmose em suínos estão sendo possíveis graças ao apoio financeiro das entidades que fomentam a pesquisa no Paraná (Fundação Araucária) e no Brasil (CNPq e Capes).

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Acompanhe abaixo a entrevista da FOLHA com o professor Garcia. 

Como está sendo desenvolvida a vacina contra toxoplasmose para suínos?

Durante esses 23 anos de estudos, conseguimos produzir algumas formulações e perspectivas de vacina, desde uma vacina viva (atenuada para o suíno), proteínas específicas do parasita, proteínas recombinantes, sendo que atualmente estamos estudando as vacinas de DNA. Quando falamos de eficácia, o objetivo nosso é diminuir a formação do parasita nas carnes do suíno, então a eficácia da vacina vai depender do tipo de formulação, mas pode variar de 40% a 90%, ou seja, de 40% a 90% menos parasita nas carnes e, consequentemente, diminuindo a probabilidade de infecções humanas por esse tipo de alimento.

Existe previsão de quando essa vacina estará disponível para o rebanho brasileiro?

É difícil falar em tempo, mas vale ressaltar que todas essas formulações que descrevi acima já foram testadas em camundongos e algumas delas em suínos também – são trabalhos que vêm sendo publicados desde 2005. É claro que, para sair do papel, a indústria deve ter interesse nessa medida de prevenção e agregar sanidade à indústria da carne nacional, o que poderia ser algo inédito no mundo. O atrativo de uma vacina nesses animais seria produzir uma carne mais segura para o consumo humano.

Esse parasita aqui no Brasil tem genótipos que são considerados mais patogênicos que outras regiões do mundo, como Estados Unidos e Europa. Além disso, a Europa elencou o Toxoplasma gondii como prioridade na prevenção. É uma enfermidade que não causa muitas mortes, mas gera uma incapacidade por poder causar aborto, problemas oculares e até desordens psiquiátricas em seres humanos.

Sem vacina, hoje, o que o pecuarista deve fazer para evitar a toxoplasmose no rebanho suíno?

Os produtores já vêm tomando medidas preventivas e realmente estão de parabéns. Na nossa região, na década de 1990, os dados epidemiológicos mostravam que a prevalência da toxoplasmose em suínos era de 37%, e esses índices caíram muito, para cerca de 4% a 6%. Embora mesmo com prevalências baixas, o potencial de transmissão é grande. Isso já foi demonstrado em estudo nos Estados Unidos, onde mesmo a prevalência de 2,7% poderia gerar altos índices de infecção humana pela carne. O controle adequado de roedores, proteção das rações e evitar o acesso de animais nos galpões são medidas importantes e que geram bons resultados na prevenção.

Quais os efeitos da toxoplasmose para a saúde suína?

A toxoplasmose em suínos normalmente passa despercebida, mas podem ocorrer abortamentos em porcas, que devem ser sempre investigados. Não existem dados brasileiros sobre prejuízos econômicos que essa parasitose causa nessa espécie animal. Como destacado acima, se a carne suína for consumida crua ou mal cozida e estiver infectada, ela pode ser transmitida para os seres humanos. A carne suína é a carne mais consumida no mundo hoje. Outra situação que pode aumentar a infecção é que os animais mais velhos que têm maior probabilidade de estarem infectados (por exemplo, porcas) são enviados ao abate. Porém, elas saem do padrão da carne comercializada e são encaminhadas para fabricação de embutidos, hambúrgueres, entre outros, e o consumo desses produtos mal passados não é incomum.

Foto em destaque: iStock