Tudo ao natural. Opção de vida
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 22 de outubro de 2004
Cláudia Barberato<br> Reportagem Local 
Há 23 anos Relinde e Engelert saíram da Alemanha com o destino certo: Rolândia, no Brasil, onde um irmão dela já morava. A mudança foi uma opção para ''fugir'' de um problema de saúde do marido, conta dona Relinde. Na bagagem os remédios recomendados pelos médicos e a esperança de contornar o problema levando uma vida mais tranquila, longe do estresse, junto da natureza. Na Alemanha Engelert era engenheiro eletrônico e vivia sob constante pressão e Relinde atuava como massoterapeuta.
Na chegada ao Brasil parte da mudança do casal ficou retida no porto e junto com ela os remédios para o tratamento de saúde de Engelert. O jeito foi improvisar, conta Relinde. Seguindo conselhos de amigos e relembrando parte de sua experiência na zona rural - Relinde é filha de agricultores, enquanto parte dos remédios não eram liberados, Engelert começou a ''testar'' o uso de plantas e ervas para tratar seu problema. Uma das primeiras plantas que ele começou a usar foi a aveloz.
O gosto pela vida que chamaram de alternativa nunca mais foi esquecido e hoje, na casa, no jardim e em toda a área de dois alqueires da chácara onde vivem pode-se encontrar plantas que não só embelezam o lugar, mas que são ''recomendadas'' para quer quiser, segundo Relinda, levar uma vida mais saudável. Dos temperos, ervas e legumes sai o cardápio diário do casal e a inspiração para presentear amigos e conhecidos.
Aspargo, morango, jurubeba, carqueja, alcachofra, canela, confrei, amora, dividem espaço na horta dos Kronenberg com alface, couve, beterraba, alho-poró, cebola. Plantas simples recebem o mesmo tratamento e atenção de legumes nobres como a alcachofra, planta aliás que Relinde cultiva mais para presentear aos amigos do que saborear. Segundo ela a flor da alcachofra é ''uma das coisas mais bonitas da natureza que ela gosta de observar o desabrochar diário.''
Uma atenção especial é dada a aveloz, a planta utilizada por Engelert como ''remédio'' alternativo a uma cirrose de fígado diagnosticada na Alemanha antes de sua vinda para o Brasil. Ele costuma colocar uma gota do látex produzida pela planta misturada a um copo de leite de cabra todas as manhãs. Ele conta que algumas pessoas costumam usar o aveloz no tratamento do câncer. No entanto, nada ainda foi comprovado pela ciência.
Relinde com 70 anos e Engelert de 72 anos contam apenas com a ajuda de um empregado na propriedade para realizar todo o trabalho. João Taborda também aprendeu o gosto pela ''vida mais natural.'' Ele está lá há seis anos e conta que tenta ensinar aos filhos, são seis, parte do que aprendeu com o casal; é possível viver bem e tirar da terra tudo de bom que ela pode dar.
O primeiro dos ensinamentos foi o cultivo, na horta, formada ao lado de sua casa, de plantas suficientes para tirar seu sustento. O restante é complementado pelas criações: gado leiteiro, galinhas, ovelhas e cabras. A área tem ainda mandioca, milho e frutas. ''A gente precisa de pouca coisa fora daqui,'' conta Relinde. Ela confessa que nos finais de semana compra um pãozinho ou outro tipo de carne na cidade, a menos de três quilômetros da propriedade.
Das 50 cabras criadas por lá, além do leite para sustento dos que moram na chácara, há um dinheiro extra com a venda do leite e do queijo. Geralmente as pessoas que procuram pelo leite de cabra, segundo Relinde, são mães cujos filhos têm alergia ao leite de vaca. A criação também é fonte de adubo natural. O esterco das cabras e das ovelhas (cerca de 15 cabeças) é usado em toda a plantação que existe na propriedade e garante, segundo o casal, boa produtividade na horta, nas frutas, mandioca, milho e tudo o mais. As cabras e ovelhas recebem napier, cultivado no local, e farelo comprado na Cooperativa Corol.
Dona Relinde ainda encontra tempo para preparar seus doces, compotas e o artesanato com a lã de carneiros criados na propriedade. Blusas, meias, gorros e tapeçarias saem prontas da roca e são vendidas na propriedade ou em feiras de artesanatos da cidade.
Na época de festas como o Natal, por exemplo, faz a decoração com folhas, cascas de árvores e pedras que encontra pelo local. Aliás, uma de suas ''manias'' é conservar pedaços de troncos 'quebrados' de árvores. No jardim da casa mantém restos de troncos, cultivados com flores, que recolheu há mais de 20 anos.
A pequena propriedade, gigante em diversificação, se mantém com a venda do leite de cabra, do queijo, das geléias, do artesanato, mas o casal complementa sua renda com aluguel de casas em Rolândia. Nosso objetivo, garantem, é viver de maneira mais saudável, sem ser especialistas em nada. Importante, ressalta Relinde, é ter uma terra boa ''é não ter vergonha de sujar a mão.''


