Triticultura pede socorro
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sexta-feira, 06 de julho de 2012
Mariana Fabre <br> Reportagem Local 
Há 30 anos cultivando trigo em Londrina, a família Zampar vivencia um dos períodos que define como de maior decadência do cereal. Nesta safra, João Paulo Zampar planta trigo em uma área de 45 hectares e espera uma produtividade de aproximadamente 3.500 kg/ha, graças ao clima que tem contribuído para o desempenho da lavoura. Mas há três anos, a área ocupada pelo cereal na propriedade era de 133 hectares, uma redução de 66%. A maior parte da área está agora tomada pelo milho de segunda safra, cuja rentabilidade é bem mais alta. ''Quem cultiva trigo planta por tradição, porque insiste e acredita que o ano será melhor'', justifica.
O caso de Zampar representa a realidade da triticultura no Paraná, que este ano sofreu redução de 28% na área cultivada, passando de 1,06 milhão de hectares na safra 2010/11 para 768,4 mil hectares na safra 2011/12, segundo levantamento do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab). Com isso, a produção paranaense de trigo deve ser de 2,22 milhões de toneladas, volume 9% menor do que os 2,44 milhões colhidos na safra passada. As causas dessa redução já são velhas conhecidas da cadeia produtiva do trigo: preços baixos e dificuldade de comercialização impulsionada pelo grande volume importado principalmente da Argentina. Mas este ano, outro fator contribuiu para a substituição do trigo nos campos paranaenses: o bom momento vivenciado pelo milho, com valorização de preços e alta liquidez.
Zampar explica que outro motivo que o leva a manter a produção de trigo é o benefício agronômico obtido com a rotação e diversificação de cultivos. O triticultor alega que é preciso que se faça cumprir os preços baseados na nova classificação do trigo. Ele também lamenta o aumento dos custos de produção, fomentados nos preços dos defensivos e demais insumos. Zampar investe em tecnologia para produção de trigo melhorador e, com isso, tenta incrementar a renda por meio de alta rentabilidade.
O agricultor espera que a redução da oferta do produto no mercado possa resultar na valorização do trigo no momento de venda. Zampar vai colher o trigo no início de setembro e já tem parte negociada com a cooperativa Integrada em troca de insumos. ''Vamos aguardar para ver como será a comercialização, que pode ser animadora, mas se a situação continuar assim penso em reduzir ainda mais a área'', planeja.
O engenheiro agrônomo da cooperativa Integrada, Reginaldo Sábio, afirma que o trigo paranaense possui alta qualidade e que essa questão não é o principal entrave para a venda aos moinhos. ''O problema maior é governamental, pois as importações da Argentina atrapalham a comercialização da produção nacional'', argumenta. Sábio também critica a falta de interesse das instituições de pesquisa em relação ao trigo, tendo em vista que, segundo ele, há mais de dois anos não são lançadas novas variedades ou produtos específicos para controle de doenças que atacam as lavouras de trigo.
O produtor Mario Toshio Makuda, que cultiva 100 hectares de trigo em Assaí, ainda tem enfrentado este ano dificuldades causadas pelo excesso de chuva, que resultou na incidência de brusone e giberela, doenças que exigem alto investimento para controle. ''Temos que pagar para trabalhar, mas não tenho alternativa'', lamenta. Sobre a possibilidade de substituir a produção por milho, Makuda conta que seria muito difícil aprender a lidar com uma nova cultura nesse momento em que já está se aposentando. ''O produtor de trigo está desmotivado e as autoridades nos tratam com desprezo. Insisto porque nasci e fui criado fazendo isso, mas a situação está difícil, não temos uma liderança para contestar as atuais políticas do setor'', critica.


