Trinta anos de plantio direto
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sexta-feira, 14 de maio de 2004
Reportagem Local 
Reportagem Local
Os agricultores de Mauá da Serra (54 km ao sul de Apucarana) têm a lembrança viva das dificuldades que encontraram no início da década de 70 para tornarem propriedades destruídas pela erosão em áreas produtivas.
A colônia japonesa encontrou áreas em declive, desgastadas pela monocultura cultivada em sistema convencional e transformou o lugar em exemplo de produtividade, com índices acima da média, que destacam a região entre outras em todo o País.
A transformação aconteceu a partir do uso da técnica do plantio direto na palha que em 2004 está completando 30 anos de implantação naquela região.
Para comemorar os 30 anos de plantio direto os agricultores estão preparando eventos que deverão acontecer até o final do ano. Já foram entregues 34 comendas a representantes de vários segmentos que colaboraram para a implantação e o desenvolvimento do plantio direto no Paraná e no Brasil.
Entre os homenageados estão os pioneiros de Mauá da Serra Yukimitsu Uemura e Toshiyuki Yamanaka. Também o agricultor Herbert Arnould Bartz, pioneiro da técnica no Brasil, foi um dos homenageados.
Empresas de máquinas e implementos agrícolas - responsáveis pelo desenvolvimento de tecnologias que permitiram a implantação do plantio direto; e da indústria química também tiveram reconhecimento. Outros homenageados são os veículos de comunicação que os agricultores consideram importantes na divulgação da tecnologia. Entre eles a Folha Rural, suplemento da Folha de Londrina; e o programa Globo Rural, da Rede Globo.
O empresário José Eduardo de Andrade Vieira foi homenageado na sexta-feira pelos serviços prestados pelas empresas que dirigiu e como senador e ministro da Agricultura. O Banco Bamerindus, no início dos anos 70, foi o primeiro estabelecimento a bancar uma campanha contra erosão. Anos depois, com José Eduardo à frente, o Ministério da Agricultura implementou campanhas para manter e melhorar a fertilidade do solo. E a Folha de Londrina, tem divulgado a técnica e sua evolução, através da Folha Rural.
As comemorações que começaram no último dia 13, com palestras e homenagens aos precursores do plantio direto, prosseguiram durante toda a semana, com o lançamento da pedra fundamental do museu do plantio direto, entre outras atividades, inclusive com a 9ª Festa do Milho, que acontece neste final de semana na cidade.
Da erosão ao modelo
De áreas inviabilizadas pela intensa mecanização e exploração sucessiva em sistemas convencionais de plantio, capazes de inviabilizar em alguns casos o uso do solo, o plantio direto transformou a região em modelo tecnológico. Nós pegamos um solo com sapés e samambaias e transformamos numa terra fértil, produtiva e valorizada, comenta o produtor Sérgio Kasutoshi Higashibara, um dos coordenadores das comemorações em Mauá da Serra.
Guardo ainda na memória lembranças de dias muito difíceis. Eu ainda era jovem, trabalhava nas terras com meus pais e irmãos e me lembro da tristeza dos dias de muita chuva. Junto com a água da chuva, víamos, da varanda de nossa casa, a terra correr embora, deixando para trás grandes erosões. Ficávamos ali assistindo a tudo e sem poder fazer nada, conta Higashibara.
Naquela época, segundo ele, os produtores não conheciam nenhum método eficaz, capaz de evitar que aquilo tudo acontecesse. Nada do que fazíamos era suficiente contra a força da natureza, lembra.
No começo de 1974, os agricultores de Mauá foram até a propriedade de Herbert Bartz, em Rolândia (25 km a oeste de Londrina), para conhecer a solução que o agricultor havia achado para problemas como a erosão e conhecer um pouco daquela técnica de plantar sem remover muito a terra.
O produtor Yukimitsu Uemura, hoje com 75 anos, era um deles. Naquela época, plantava soja e trigo. A produtividade era baixa, ficava entre 50 e 60 sacas por alqueire e, quando vinha a chuva, era prejuízo certo;, com a terra rodando para as baixadas e rios, não dando, muitas vezes, condições para replantio devido às dificuldades de movimentar o trator entre os sulcos da erosão, relata.
Depois da visita a Rolândia Higashibara conta que os agricultores se convenceram que o manejo poderia ser a solução para as terras em Mauá. Percebemos que a força da água, que levava nossas terras embora, era domada pela palha no solo, lembra Higashibara.
Sem herbicidas e maquinários apropriados, o trabalho, de início, foi árduo. O mato tinha que ser tirado na enxada ou à mão; as máquinas não tinham agilidade e precisão. Em um dia de serviço, com cerca de 12 horas de trabalho, conseguia-se plantar apenas 10 hectares, em média.
Valeu a pena, complementa Carlos Tsuyoshi Kamiguchi, representante da segunda geração de produtores do plantio direto. Hoje temos um solo recuperado, produtivo, e nos orgulhamos de praticar uma agricultura sustentável, diz.
Eu nunca pensei que aquela região fosse mudar tanto, complementa Herbert Bartz. Ele credita o sucesso também à tradição e disciplina da colônia japonesa na região. É uma satisfação ver o resultado do plantio direto na região de Mauá, que é hoje um modelo do sistema para todo o País, elogia.


