Paulo Pegoraro
De Cascavel
O bucólico visual de trigais vicejando, com seus cachos balançando ao vento, está sendo contemplado em áreas cada vez mais restritas, em uma das regiões brasileiras onde teoricamente o cereal teria campo mais fértil, o oeste do Paraná. As safras ‘‘murcham’’ ano a ano, seguindo a tendência nacional, porque ‘‘murcha’’ o ânimo dos produtores, desestimulados principalmente pelo mercado pouco remunerador, e onde o produto importado predomina.
O Oeste tem inverno com temperaturas muito baixas, comparáveis com as do Extremo-Sul, e, com o zoneamento agrícola, que redefiniu épocas para o plantio, quando chegam as geadas (tradicionais) as plantas estão em fase menos suscetível. Mesmo assim, em alguns anos chuva e estiagem fortes têm aparecido em períodos inadequados. Na safra anterior, o resultado foi grande quebra, e, na atual, choveu forte e constantemente a partir de junho.
DoençasA consequência é o aparecimento de doenças fúngicas, obrigando os agricultores ao uso de uma carga extra de produtos químicos para combatê-las, o que representa maior custo de produção. No entanto, o técnico Edson Maggi, do Departamento de Economia Rural do Núcleo de Cascavel da Secretaria Estadual de Agricultura (Seab), observa que os ‘‘problemas do tempo’’ não são o maior fator de desestímulo à cultura, porque eles ocorrem eventualmente.
Se há frustração numa safra, na outra ocorre a compensação, ‘‘e se o produtor tiver a perspectiva do ganho financeiro, vai plantar’’, comenta o técnico. Mas a conjugação dos fatores preço e frustração por motivos climáticos têm resultados avassaladores. No Oeste, em meia centena de municípios, a cultura ocupa apenas 164,4 mil hectares, uma redução de 37,5% (a maior entre todas as regiões paranaenses) em relação aos 263,8 mil hectares de colheita em 98.
No caso específico dos trinta municípios do Núcleo de Cascavel da Seab, a baixa é ainda maior. Em 98, a colheita ocorreu em 101,4 mil hectares, e agora apenas 58,3 mil plantados - diferença brutal mesmo comparada ao início da década, quando o trigo ocupava mais de 260 mil hectares. Em todo o estado, a redução é superior a 18%, percentual muito inferior ao do Oeste porque houve regiões em que a queda foi contida pelo bom desempenho das lavouras na última safra.
ExpectativaA estimativa é de que o Paraná colha 1,55 milhão de toneladas de grãos, este ano. Para isso, a produtividade terá que passar de 2,1 mil quilos por hectare -no ano passado, foram apenas 1,7 mil, e, no caso do Oeste, 1,4 mil, longe dos 2 mil quilos obtidos no Norte e no Sul. O Paraná já dedicou mais de 1,7 milhão de hectares ao trigo, em 87, com safra de 3,2 milhões de toneladas, e, em 85, conseguiu uma produtividade histórica, até então, de mais de 2 mil quilos.
O diretor-secretário da Cooperativa Central Regional Iguaçu (Cotriguaçu), de Cascavel, Sebaldo Waclawovski, que é produtor rural, dedicou no ano passado 60 hectares ao trigo. Agora, são apenas 35 hectares, ‘‘e no restante aveia’’, relata. Sebaldo lembra que o preço pago no moinho, na faixa pouco superior a US$ 100,00 a tonelada, há uma década havia chegado a US$ 200,00. Para ele, em moeda nacional, a remuneração mínima ao produtor deveria ser acima de R$ 220,00.
A Cotriguaçu opera um moinho de trigo em Palotina, que no ano passado industrializou 100 mil toneladas, 80% de grãos nacionais, e o restante importados, não apenas para melhorar a qualidade da farinha, ‘‘mas também porque faltaram grãos internamente’’, relata o diretor-secretário. Com a safra plantada este ano, o quadro é ainda pior. ‘‘É fatal a junção da frustração no campo com a permanente falta de apoio da política oficial do setor’’, completa.
A redução de área é permanente e avassaladora, nos últimos 4 anos, período que foi iniciado com 293 mil hectares de colheita, para chegar agora aos minguados 164,4 mil hectares de plantio. Por isso, quem contempla de longe áreas cobertas por plantas ainda baixas, na região, pode imaginar tratar-se de vastos trigais. De perto, porém, se confere que parte considerável é apenas cobertura para o solo.Chuvas fortes e constantes durante o mês de junho prejudicaram o trigo, provocando o aparecimento de doenças
Edson MazzettoReduçãoÉ comum encontrar em áreas próximas a Cascavel, plantios de trigo mesclados com cobertura verdeSebaldo Waclawovski também reduziu sua área de trigo por causa da falta de estímulo

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