Trigo segue caminho do algodão
Se a tendência que vem sendo observada nos dois últimos anos continuar, o trigo seguirá o mesmo caminho do algodão: vai desaparecer. A previsão é do engenheiro-agrônomo Júlio Gonçalves, gerente técnico da Cooperativa Agrícola Vale do Tibagi Ltda. (Valcoop), sediada em Londrina, com atuação no Vale do Paranapanema.
Para justificar sua previsão, Gonçalves lembra o que aconteceu no inverno passado em Sertanópolis, na microrregião de Londrina: enquanto o milho-safrinha ocupou 24 mil hectares, o trigo chegou apenas a cerca de 2 mil ha. Sertanópolis já foi o maior produtor de trigo do Norte do Paraná.
Sem incentivoGonçalves atribui o desencanto dos agricultores com o trigo à falta de uma política de incentivo ao cereal, entre outros fatores como preço. Já o manejo do milho, cultura típica de verão, é menos exigente em tecnologias encarecedoras do custo de produção - em geral a tecnologia está embutida nas sementes que, entre outras características, transmitem-lhe maior capacidade de resistir ao estresse climático.
RecuperaçãoMinistro da Agricultura prevê 5 milhões de toneladas de trigo em 2003Em geral os preços do milho são baixos, comparados com outras culturas, mas como o custo também é baixo, os agricultores perdem menos em caso de frustração de safra.
Chuva já prejudicaNo começo da safra 98/99, quando foram plantadas entre outras as lavouras de soja e milho, elas sofreram perda devido à falta de chuva. Agora a chuva atrapalha os tratos culturais, informa Júlio Gonçalves.
O controle de invasoras (ervas daninhas) atrasou, porque os tratores não podiam entrar no campo. Gonçalves previa, no fim da semana passada, que se continuasse chovendo por mais dois ou três dias, seria difícil controlar os efeitos da falta de tratos culturais nas plantações. Mas o visual das lavouras está bem diferente, observa o técnico.
Na safra atual, das águas, a Valcoop trabalha com 95 mil a 6100 mil hectares de soja e 16 mil-17 mil hectares de milho. Gonçalves esclarece que normalmente ela trabalhava com 30 mil hectares de milho no verão, mas a safrinha deve superar esta, que era a principal safra do milho, pois somente o município de Sertanópolis, que já cultivou 24 mil/ha de milho em 97/98, deve plantar mais de 20 mil ha neste ano.
Para o trigo a cooperativa ainda não fez uma previsão de plantio. A tendência é ser menor ainda que os 2 mil ha do ano passado.
FortalecimentoO Brasil, que na safra passada produziu apenas 2,4 milhões de toneladas de trigo, poderá chegar a 5 milhões de toneladas em 2003, se for confirmada previsão de um grupo de técnicos do Paraná e Rio Grande do Sul que no ano passado, a pedido do ministro da Agricultura, Francisco Turra, elaboraram a Estratégia para Recuperação da Triticultura Nacional. Esses mesmos técnicos previram que, já na safra de 99, a produção nacional pode aumentar de 2,4 milhões para 3 milhões de toneladas.
A previsão dos técnicos indica que a produção brasileira de trigo poderá representar, em 2003, quase 60% dos 8,5 milhões de toneladas consumidos hoje no País. Se esse prognóstico for confirmado, o Brasil reduzirá em mais de 70% as importações do produto, considerando números atuais, que indicam a compra, no Exterior, de cerca de 6 milhões de toneladas. Conseguindo aquele desempenho, o Brasil deixaria de ser o terceiro maior importador de trigo do mundo, e chegaria de novo próximo da auto-sufiência, quase alcançada em 1987, quando colheu 6,2 milhões de toneladas.
Embora venha ocupando 1,4 milhão de hectares, apenas, o País tem no mínimo 10 milhões de hectares, em regiões agrícolas tradicionais e no Cerrado do Brasil Central, onde pode cultivar trigo, segundo Benami Bacaltchuk, membro do grupo que elaborou o trabalho. Em 1986 foram plantados mais de 3,8 milhões de hectares, que levaram o País a ficar bem perto da auto-suficiência. A produtividade esperada para este ano é de 1,7 tonelada por hectare. Argentina e Canadá têm média de 2,2.
ApôioO grupo de técnicos propõe que, para colher 3 milhões de toneladas de trigo em 1999 e aumentar a produção em 500 mil toneladas/ano até 2003, medidas de apôio à produção, comercialização e desenvolvimento da triticultura. Entre elas: facilitar o acesso dos produtores à tecnologia, para que possam aplicá-la ao processo produtivo.
Outras necessidades para conseguir aquela meta deste ano: 1 - R$300 milhões para custeio da safra em 1999, quando se espera que seja plantado 1,5 milhão de hectares; 2 - financiamento do custeio agrícola pelo sistema de crédito rotativo - 80% do orçamento técnico com taxa de juros de 5,75%, equivalente à do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf); 3 - liberação dos empréstimos 30 dias antes do início do plantio em cada região; 4 - amortização da dívida em quatro parcelas, a primeira vencendo 60 dias depois da colheita e as demais a cada 30 dias; 5 - mudanças no Proagro da triticultura, permitindo cobertura das perdas por seca, sem alteração de alíquota, cobertura por danos causados por fusariose (giberela), também sem modificar a alíquota, e a conceituação mais exata do que seja chuva excessiva na colheita; 6 -preço mínimo de garantia de US$146 a tonelada, o que asseguraria R$175 por tonelada para o trigo tipo 1.Dorico da SilvaA safrinha está quase superando a safra principal (foto) do milho no Norte do ParanáJota Oliveira





