Por ocasião do 2º Seminário Técnico de Trigo realizado em fevereiro de 2001, em Londrina, o engenheiro agrônomo José Aroldo Galassini, Presidente da Coopertiva Agropecuária de Campo Mourão (COAMO), em sua palestra intitulada ‘‘Importância da cultura do trigo no sistema de produção da região Centro-Sul do Brasil’’, além de outras ponderações, fez a seguinte pergunta sobre a política de trigo: o Brasil quer ‘‘PRODUZIR ou IMPORTAR’’ o trigo que consome? Observação semelhante já havia sido feita pelo pesquisador de trigo Ady Raul da Silva, em artigo publicado na Revista ‘‘A Granja’’, editada em 1971.
Portanto, lá se vão 30 anos e, ainda, não há uma política definida para o trigo, apesar do consumo estar ao redor de 10 milhões de toneladas.
Na década de 80, quando houve uma decisão governamental de produzir trigo no País, via preço, os triticultores brasileiros, por dois anos consecutivos, 86 e 87, conseguiram produzir o equivalente a 95% do consumo brasileiro. No ano passado, em declaração sobre a agricultura no Mercosul e, mais precisamente sobre o trigo, o Secretário Geral do Ministério das Relações Exteriores, da época, enfocou, em letras maiúsculas, que o trigo era e deveria ser tratado sobre o aspecto político e não técnico.
Analisando estes fatos e aliando a experiência adquirida ao trabalhar com esta cultura ao longo de dezenas de anos, realmente, precisa-se de uma resposta à pergunta: O Brasil quer PRODUZIR ou IMPORTAR trigo? Sobre o aspecto político, somente uma pressão das entidades de classe ligadas ao setor e com o apoio de políticos interessados, pode-se ajudar, a longo prazo, a diminuir a dependência externa do trigo para o consumo dos brasileiros. E, ao mesmo tempo, diminuir o déficit da balança comercial brasileira, já que o Brasil situa-se hoje como o maior importador mundial desse cereal.
Sob o aspecto técnico de produzir trigo no País, não resta mais dúvida de que é técnica e economicamente viável e, ainda, sob o prisma da qualidade, atende plenamente à demanda do mercado.
Até a década de 90, a pesquisa concentrou seus esforços na obtenção de cultivares com ampla adaptação, produtivas e com resistência às doenças, sem se preocupar com a qualidade. Pois não havia esta demanda. Após a privatização da compra, em 1991, houve uma forte demanda pela qualidade industrial, isto é, por trigo de glúten forte. Até então, os de glúten fraco, denominados de ‘‘trigo comum ’’, destinados à produção de biscoitos, bolachas, pizzas e panificação caseira, tinha-se em abundância. Aliás, a Argentina não produz esse tipo de trigo.
Atendendo a demanda, a pesquisa conseguiu, em poucos anos, colocar cultivares de média a alta força de glúten, a semelhança dos trigo argentinos. No Paraná, hoje, 95% das cultivares indicadas e disponíveis para cultivo, têm potencial genético para atender a essa demanda.
Sob o prisma dos produtores, quando essa cultura faz parte dos sistemas de produção da propriedade, principalmente, na Regiões Centro-Sul e Sul do Brasil, apesar de todos os custos de produção e de eventuais intempéries climáticas, é viável técnica e economicamente. Para que isso aconteça, ela deve ser manejada com toda a tecnologia disponível, desde a escolha da cultivar mais propícia, passando pelas épocas de semeadura mais adequadas para cada região, cuidados no controle das doenças fúngicas, quando necessário e do momento da colheita e da comercialização.
Sabemos de vários exemplos de produtores, que seguindo criteriosamente as tecnologias indicadas, conseguem produtividades acima de 3.000 kg/ha (144 sacas/alqueire). Conformar-se com produtividades médias de 2.000 kg/ha, significa não saber explorar o potencial que essa cultura apresenta e, dessa forma, torná-la não competitiva.
No aspecto da comercialização, que é um dos gargalos do sistema de produção, recentemente a Indústria Moageira (ABITRIGO), sinalizou com perspectivas de comprar a produção, haja vista, o encarecimento do trigo estrangeiro, pela alta do dólar. Nesse sentido, o ideal seria uma forte parceria entre os moinhos e os produtores (cooperativas), com um compromisso de dupla via: o moinho contratar a produção com a quantidade e a qualidade demandada e, o produtor, produzir esse trigo, com mercado garantido.
Por último, cabe ao governo criar mecanismos adequados para que esse sonho se realize, entre eles, fixar com antecedência mínima necessária, os mecanismos da safra, como preço mínimo para efeitos do PEP (Programa de Escoamento da Produção) e base de financiamento, promover incentivos para a liquidez do produto, disponibilizar recursos de custeio e incentivar a criação do seguro rural, tendo em vista ser a agricultura uma atividade sujeita a riscos ambientais incontroláveis.
Acreditando nesse sonho, o País brevemente estará, no mínimo, produzindo 50% do seu consumo e, deste modo, fortalecendo toda a cadeia produtiva do trigo e da agricultura e, economizando milhões de dólares, que, atualmente, são enviados ao exterior, para beneficiar os produtores de lá.
O autor é engenheiro agrônomo, Ph.D., Presidente da Associação dos Engenheiros Agrônomos de Londrina e Pesquisador de Trigo da Embrapa Soja.

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