Trigo: perspectivas para 1998
Dionísio Brunetta e Sérgio Roberto Dotto
Ao se aproximar mais uma vez o início da época recomendada para a semeadura do trigo no Paraná, muitos agricultores conscientes da necessidade de manter suas propriedades produtivas durante os meses de inverno, devem estar procurando os departamentos técnicos das cooperativas, na busca de informações que possam dirimir suas dúvidas e incertezas sobre o quê, quando e como plantar a próxima safra.
Uma opção pode ser a de semear uma cultura destinada apenas a proteger o solo, evitando a degradação e ao mesmo tempo prepará-lo para receber a próxima safra de verão. Outra opção é cultivar uma espécie que, além de ajudar na proteção do solo, possa proporcionar alguma renda.
O trigo, por ser uma cultura de amplo mercado, apresenta-se como a melhor opção de renda real neste período para a maioria dos agricultores do Paraná.
Alguns fatores estão mais favoráveis para quem optar pela semeadura do trigo, neste e nos próximos anos. Um deles reporta-se ao mercado mundial, em que existe a previsão do crescimento do consumo de derivados de trigo por parte do povo chinês, em decorreência da melhoria da renda per capita que deverá aquecer a demanda, com reflexos significativos nos preços.
Atualmente o grande concorrente do trigo paranense é o proveniente da Argentina que, devido às condições extremamente favoráveis de solo e clima, pode ser produzido a custos tão baixos que nenhum outro país consegue competir. Infelizmente, para os agricultores do Sul do Brasil esse trigo entra em nosso país livre de qualquer tarifa, amparado pelos acordos unilaterais do Mercosul.
Apesar disso, acreditamos que o Paraná dispõe de reais condições de semear ao menos um milhão de hectares de trigo, em áreas rotacionadas, formando lavouras de alto padrão tecnológico cuja produtividade se aproxime da média de 2.500 kg/ha, com custos de produção que permitam a remuneração da atividade.
Acompanhando de perto as lavouras de trigo no Estado, nos últimos anos, verifica-se, em muitas delas, uma melhoria significativa do padrão tecnológico. Os reflexos podem ser observados no aumento da produtividade registrado em diversas regiões do Paraná, onde o clima não foi muito desfavorável. Isto demonstra claramente que muitos agricultores estão agindo com maturidade, procurando semear suas lavouras de trigo em época de menor risco e utilizando os insumos necessários para alcançar uma boa produtividade. Se o clima for um pouco mais favorável, o que é muito provável para este ano, teremos uma grande safra de trigo de qualidade superior e com mercado garantido.
A comercialização, que nos primeiros anos após a privatização andou difícil, parece estar tomando rumo e se estabilizando num patamar de preços que, se não é o ideal, ao menos tem sido suficiente para proporcionar algum lucro aos agricultores que obtiveram boas colheitas. Existe a promesssa por parte do Governo de que a política de crédito e incentivos para o escoamento do produto via PEP, quando necessários, serão mantidos nos próximos anos. Como afirmamos, essas medidas não atendem plenamente as aspirações do setor produtivo; no entanto, elas refletem uma postura mais amadurecida das autoridades governamentais, pois sinalizam a existência de regras mais estáveis e de prazo mais longo e atendem um pleito sempre presente nas reivindicações da classe produtora.
Na busca de soluções para a comercialização, entendemos ser de extrema urgência que se promovam parcerias entre os empresários da indústria de moagem e os produtores de trigo, visando definir, de maneira clara, as classes de trigo que o mercado consumidor está a demandar. Algumas regiões do Paraná, como o Norte e parte do Oeste, apresentam condições climáticas favoráveis para se produzir trigo superior ou melhorador, destinado à indústria de pão tipo francês e de macarrão. Bneficiam-se ainda os agricultores dessas regiões, pelo fato de se situarem próximos do grande mercado consumidor de São Paulo, onde o trigo pode chegar a custos competitivos. Por outro lado, existem áreas do Paraná onde o trigo mais suave tem demonstrado melhor adaptação. Existe um mercado, representado pelas indústrias de biscoitos, de pizzas e de outros derivados, que necessita de farinha de menor força de glúten. A demanda para esta classe de trigo é estimada em cerca de dois milhões de toneladas.
Ficaria mais fácil se essas demandas fôssem identificadas e estabelecidas parcerias para as atender com claros benefícios para os agricultores, que se sentiriam seguros para investir em suas lavouras e asseguraria às indústrias o fornecimento de matéria-prima em quantidade e qualidade para atender, de maneira constante, a seus clientes.
A oferta de sementes de trigo para esta safra no Paraná, em quase a sua totalidade, é de cultivares com potencial genético para produzir trigo superior ou melhorador. Pela primeira vez na história existe uam oferta significativa de sementes, um número elevado de cultivares dotadas de excelente potencial produtivo e de qualidade. A consequência será uma maior diversificação de cultivares, contribuindo para a redução dos riscos de surtos generalizados de doenças ou de outro fator desfavorável.
Fruto de um traballho realizado pelo Iapar, com a colaboração da Embrapa e da Coodetec, está sendo lançada para esta safra uma nova regionalização de épocas de semeadura do trigo no Paraná, pautada em informações climáticas coletadas em mais de 30 estações meteorológicas espalhadas pelo Estado e armazenadas durante várias décadas. Com o processamento de todas esssas informações, e levando em conta as diferentes altitudes do Estado, foram estabelecidas nove regiões tritícolas. Com base nas características das cultivares, em cada uma dessas regiões foi definida a épooca de semeadura que deverá proporcionar os menores riscos às lavouras e consequentemente contribuir para o aumento da produtividade.
A pesquisa, apesar das limitações orçamentárias, vem trabalhando intensamente para melhorar a tecnologia de cultivo, sempre visando o aumento da produtividade sem onerar os custos de produção. Para a presente safra novas cultivares foram lançadas para o Estado, todas de superior qualidade industrial. Duas delas com tolerância à germinação na espiga, visando atender os produtores das regiões onde ocorrem mais chuvas no período de colheita. Outras cultivares de excelente potencial de rendimento e superior qualidade industrial estão sendo desenvolvidas, devendo estar disponíveis aos agricultores dentro de dois ou três anos.
Existem dificuldades, algumas inerentes ao período em que o trigo é cultivado. A oferta do cereal argentino pode ser um forte concorrente. No entanto, encontramos motivos muito fortes para acreditar que os agricultores que conzudirem suas lavouras de trigo de maneira adequada, seguindo as recomendações técnicas disponíveis, chegarão ao final da safra de inverno mais capitalizados do que seus parceiros que optarem por outros caminhos.
Os autores são engenheiros agrônomos, pesquisadores de trigo da Embrapa Soja, sediada em Londrina.

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