Trigo nacional, um
produto estratégico
Benami BacaltchukÉ difícil falar de trigo no Brasil sem parecer lamentação. Tanto o setor produtivo quanto o setor de processamento e os consumidores estão saudosos do tempo em que todos os segmentos de sua cadeia recebiam pesados subsídios do Governo, tendo chegado ao ponto do grão ser comercializado por somente 15% do valor recebido pelos produtores. O subsídio era justificado como forma de sustentar alimentação para a população em urbanização.
Este cereal, que até já se exportou, no Século 19, está num processo rápido e contínuo de declínio. Este declínio de produção tem como efeito mais visível a redução da área cultivada, sucateamento da infra-estrutura de apoio ao processo produtivo, encarecimento dos custos de produção das culturas de verão, diminuição da oferta de empregos e deterioração da renda dos Estados e municípios sulinos, aumentando os problemas sociais que tanto pesam para o País. Tal declínio já causou a eliminação de pelo menos 160 mil empregos no campo desde 1985.
O trigo é tratado como produto estratégico na União Européia, nos Estados Unidos, no Canadá, na China e na Argentina e tem sido usado como moeda política extremamente persuasiva nos processos hegemônicos dos países do Primeiro Mundo sobre os ditos emergentes. Da mesma forma que a União Européia e os EUA usam o trigo como moeda de troca para a compra de matéria-prima estratégica e interdependência, o Brasil tem conhecimento, capacidade e espaço potencial para usar a mesma moeda em prol do seu desenvolvimento.
Somos capazes de, sem necessidade de investimentos especiais para o desenvolvimento ou abertura de novas áreas, cultivar mais de 10 milhões de hectares nas regiões tradicionais de produção e no cerrado brasileiro, já desbravado, principalmente, em áreas com irrigação.
Se for necessário buscar argumentos para a triticultura nacional, deve-se considerar alguns aspectos relevantes como se segue:
- pontos fortes: tecnologia disponível, que viabiliza estabilidade de produtividade em anos ruins ou o incremento destas em anos favoráveis; sistema produtivo que permite duas safras (trigo/soja, trigo/milho, trigo/feijão); sistema de produção de sementes que permite introdução de novas cultivares; infra-estrutura disponível; mercado interno em expansão.
- pontos fracos: instabilidade climática; preço condicionado pelo mercado inter-regional; custo de produção influenciado negativamente pelo custo Brasil.
- ameaças: o trigo é usado como moeda de troca para viabilizar a exportação de manufaturados, oferta do produto argentino; ações de grupos de interesse, tanto interna como externamente; triangulação na importação de trigos da Europa e da América do Norte como se fosse produzido no Mercosul; e indefinição política sobre a produção nacional.
- oportunidades: demanda por trigo ‘‘soft’’ para biscoitos e bolos; aumento potencial da demanda de consumo no mercado internacional; no ano 2005 a população mundial será de 6,3 bilhões e o consumo previsto pode chegar a 740 milhões de toneladas de trigo; geração de empregos (15 hectares de trigo geram um emprego direto e pelo menos mais um indireto; economia de divisas de pelo menos US$1,0 bilhão/ano em importação de trigo; entre outros.
- desafio : produzir trigo com qualidade e competitividade para a preservação de empregos e do ambiente, do negócio agrícola como um todo.
O autor é engenheiro-agrônomo, Chefe Geral da Embrapa Trigo.