Trigo enfrenta queda na produção, custos altos e incertezas no Paraná
Menor produção nacional, aumento dos custos e dependência de importações pressionam a cadeia. No Estado a previsão é de déficit de 1,4 milhão de toneladas
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sábado, 15 de agosto de 2026
Menor produção nacional, aumento dos custos e dependência de importações pressionam a cadeia. No Estado a previsão é de déficit de 1,4 milhão de toneladas
Aline Machado Parodi - Especial para a FOLHA 

A produção de trigo no Paraná chega à safra de 2026 com um cenário de redução da área plantada, custos elevados, menor oferta nacional e preocupação com a qualidade dos grãos por causa das condições climáticas previstas para o período de colheita. Ao mesmo tempo, a menor disponibilidade do cereal deve aumentar a necessidade de importações e pressionar os preços.
Durante a 9ª edição do Café Moageiro, realizada no dia 11 de agosto, em Londrina, e promovida pelo Sinditrigo-PR (Sindicato da Indústria do Trigo do Paraná), o analista da Safras & Mercado, Élcio Bento, afirmou que a redução da área plantada é resultado do desestímulo à cultura. Entre os fatores apontados por ele estão os custos elevados, o endividamento dos produtores e a existência de alternativas mais atrativas, como, por exemplo, a cevada e o milho safrinha.
O gerente de Desenvolvimento Técnico da Ocepar, Flávio Turra, destaca que o Brasil, que já chegou a produzir 10 milhões de toneladas de trigo, tem estimativa de colher cerca de 6 milhões de toneladas nesta safra. Para ele, a redução de aproximadamente 4 milhões de toneladas preocupa toda a cadeia produtiva.
No Paraná, a estimativa é de produção de 2,4 milhões de toneladas. A moagem estadual é de aproximadamente 3,8 milhões de toneladas, o que gera um déficit de 1,4 milhão de toneladas. A diferença entre produção e consumo aumenta a dependência do mercado externo.
A Argentina aparece como uma das principais alternativas de fornecimento. Porém, a próxima safra argentina só começa a entrar no mercado a partir de dezembro. Até lá, a disponibilidade de trigo importado é mais restrita. Segundo Turra, o Brasil normalmente exporta entre 1 milhão e 1,5 milhão de toneladas e poderá precisar reduzir essas exportações para atender ao mercado interno.
Além da quantidade produzida, a qualidade do trigo é outro ponto de atenção nesta safra. As primeiras lavouras colhidas no Norte do Paraná apresentam qualidade, segundo Paloma Venturelli, presidente do Sinditrigo-PR.
O problema está na possibilidade de chuvas durante a colheita. A maior parte da safra deve começar a ser colhida no início de setembro. O excesso de umidade pode comprometer a qualidade dos grãos. Bento explica que, quando o trigo perde as características necessárias para seu destino principal, a produção pode deixar de ser utilizada para farinha e ser direcionada, por exemplo, para ração.
“Quem tiver trigo, e trigo de boa qualidade, vai poder aproveitar um mercado bom”, afirma o analista. Para ele, a principal questão para o produtor não será a existência de mercado, mas a qualidade do trigo colhido.
Venturelli também aponta preocupação com o nível de investimento realizado nas lavouras. Segundo ela, a redução dos investimentos em manejo do solo e nas cultivares pode contribuir para uma queda na qualidade. Por isso, a indústria acompanha com atenção tanto a produção brasileira quanto a próxima safra argentina.
Preços podem subir, mas custos reduzem margem
O cenário de menor oferta tende a favorecer a valorização do trigo. O analista Elcio Bento avalia que a perspectiva para o próximo ano é de preços mais altos, principalmente porque o Paraná precisará recorrer ao mercado internacional.
A análise da Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná) aponta que a produção mundial e os estoques finais da safra 2025/26 estão menores do que a safra anterior. A produção mundial é projetada em 819,97 milhões de toneladas, enquanto os estoques finais devem ficar em 272 milhões de toneladas. A guerra entre Rússia e Ucrânia também continua influenciando o mercado.
No Brasil, a dependência das importações aumenta o impacto das cotações internacionais e do câmbio sobre os preços internos. O país importa 58% do trigo que consome, segundo Ana Paula Kowalski, coordenadora do Departamento Técnico e Econômico da Faep.
No Paraná, o preço médio, no dia 11 de agosto, era de R$ 74,78 por saca de 60 quilos. O valor estava 1% abaixo do registrado no mesmo período do ano anterior, quando a cotação média de agosto havia sido de R$ 75,55 por saca.
Apesar da possibilidade de alta, os produtores não necessariamente terão uma melhora proporcional nas margens. Segundo a Faep, os preços estão praticamente nos mesmos níveis do ano passado, enquanto os custos de produção continuam elevados.
O aumento dos fertilizantes e de outros insumos, associado aos conflitos internacionais, pressionou os custos da cultura.
Bento cita a ureia entre os insumos que ficaram mais caros após a guerra na Ucrânia. O produtor precisa de mais trigo para pagar os mesmos produtos utilizados na lavoura. “Se ele vai conseguir uma margem larga, aí é o custo de produção que vai dizer o tamanho dessa margem”, afirma o analista.
O cenário de custos e rentabilidade tem levado agricultores a buscar alternativas ao trigo. Segundo Ana Paula Kowalski, houve migração expressiva de áreas para cevada, que conta com fomento à produção, e para aveia destinada à produção de grãos ou à cobertura do solo.
Para o analista da Safras & Mercado, o produtor que colher trigo de boa qualidade pode ter uma oportunidade interessante de venda imediatamente após a colheita, antes da entrada da nova safra argentina no mercado. Ele avalia que o risco de manter o trigo armazenado é elevado.
“Uma estratégia possível seria vender parte da produção logo após a colheita, especialmente no caso de trigo de boa qualidade, e evitar custos financeiros e de armazenamento”, afirma.
Indústria também enfrenta pressão
Para a indústria, a menor oferta nacional representa aumento da dependência do trigo importado. Paloma Venturelli, presidente do SindiTrigo, afirma que o setor enfrenta um cenário desafiador, com custos maiores de frete marítimo e interno.
O aumento do petróleo e as questões relacionadas à guerra elevaram o frete marítimo. No mercado interno, o frete também aumentou em razão da tabela da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres). Os custos atingem não apenas a chegada do trigo aos moinhos, mas também o escoamento do farelo e da farinha.
Segundo Venturelli, a indústria não tem conseguido repassar integralmente esses aumentos ao consumidor. Embalagens e fretes também ficaram mais caros, enquanto as empresas buscam manter competitividade e rentabilidade.
“É um ano de olharmos da porteira para dentro. O que nós podemos fazer para melhorar, sermos mais eficientes e garantir a competitividade e a rentabilidade das empresas”, afirma.
Diante da dependência das importações, representantes da cadeia produtiva defendem medidas para estimular a produção nacional. Venturelli afirma que o setor discute formas de incentivar produtores e cooperativas e busca soluções para garantir o abastecimento.
Produtor reduz área plantada
O produtor rural Darci Bassi, que mantém áreas agrícolas em Wenceslau Braz, Japira (Norte Pioneiro) e Jaguariaíva (Campos Gerais), reduziu em cerca de 40% a área destinada ao cultivo de trigo neste ano. Ele plantou cerca de mil hectares.
Ele cultiva o grão desde o começo da década de 1970 e afirma que os últimos três anos estão entre os mais difíceis para o trigo, principalmente por causa dos custos de produção e das condições de mercado. “O aumento do custo foi bastante. O custo está muito difícil. Eu acho que é uma cultura que a gente vai parar, porque o trigo é de muito risco”, declara o produtor.
Segundo Bassi, na safra deste ano o custo de produção chegou a quase 70 sacas de trigo por hectare. Mesmo em áreas com boa produtividade, a margem fica comprometida. Outro problema, segundo ele, é a dificuldade de obter qualidade adequada do grão, especialmente em um ano marcado por grande volume de chuvas.
O produtor pretende iniciar a colheita na primeira quinzena de setembro. Mas, com o avanço do El Niño, Bassi teme que o excesso de chuva possa prejudicar a colheita e a qualidade do trigo. “É bastante risco de chuva. Vai ser um ano muito diferente. Os outros anos tinham uma qualidade boa, era pouca chuva. Este ano, a gente está muito, muito preocupado”, afirma. Segundo ele, a chuva tem impacto direto na qualidade do grão.
Além dos custos elevados, o produtor reclama da dificuldade de recuperação dos preços do trigo. Bassi conta que, tradicionalmente, procurava vender parte da produção em março, período de entressafra em que esperava melhores cotações. Mas o mercado não tem se mostrado favorável à espera para vender.
“A gente sempre gosta de vender em março. No mês de março sempre dava uma melhora [no preço], mas agora faz uns três anos que parece que, quanto mais se espera, pior fica”, avalia o produtor.
Parte da produção da safra passada ainda está armazenada, à espera de melhores condições de comercialização. O produtor possui estrutura própria para armazenagem e comercializa o trigo diretamente com moinhos para reduzir custos.
Para o próximo ano, Bassi está pensando em parar de plantar trigo. “A gente deve mexer com sorgo, pensar um pouco na canola também. Canola parece que dá mais resultado”, diz o produtor.


