Trigo argentino e o Século 21
Paulo Magno Rabelo
O 1º Congresso Internacional de Trigo Argentino‘97, realizado em Buenos Ayres,mostrou o desempenho da triticultura mundial e da Argentina em particular, nos últimos anos, e traçou os cenários para a produção, comercialização e industrialização de trigo e de produtos derivados da farinha naquele país e no Brasil, no limiar do Século 21.
No transcorrer das duas últimas décadas, a produção anual de trigo na Argentina estabilizou-se em torno de 10 milhões de toneladas. À exceção dos períodos 83/85 e 96/97 sua produção evoluiu para 16 milhões de toneladas.
O segmento produtor de trigo teve seu desempenho prejudicado por décadas de ineficiente interferência estatal, resultando em processo de estagnação num país detentor de terras de inigualável fertilidade e com invejável qualidade topográfica para a agricultura.
O modelo de produção da Argentina baseou-se na exploração das excepcionais condições naturais existentes para a produção agrícola, a exemplo da alta fertilidade natural de seus solos. Produzir com baixo custo tornou o trigo argentino o mais barato do mercado; entretanto, o produto com baixos preços resultou na má-remuneração do produtor, que ficou com reduzida capacidade para absorver inovações tecnológicas muito difundidas em outras regiões produtoras. A atividade tritícola do País estagnou-se por anos seguidos, em ambiente de perdas sucessivas da qualidade de sua produção. Internamente constatou-se queda no consumo ‘‘per capita’’ da população e, no ambiente externo, o país perdeu parcelas significativas do mercado da mais importante ‘‘commodity’’ agrícola.
O rápido processo de mudanças nas relações de mercado e comércio internacionais, o desenvolvimento crescente do fenômeno de urbanização e os significativos ganhos de renda ‘‘per capita’’ em regiões antes concentradoras de pobreza, levaram diversas instituições privadas e públicas, a exemplo do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), a prognosticar uma explosão do consumo mundial de trigo às portas do Século 21. Este fato implicará aumento crescente do comércio entre as nações, podendo evoluir dos atuais 98 para 121 milhões de toneladas até o ano 2005. Ainda de acordo com a mesma fonte, poderá ocorrer, a partir do próximo ano-safra, um progressivo recuo do relativo estoque-consumo, podendo passar de 20,6% em 1997/98, para 12,1% em 2005, significando um hiato entre a produção e o consumo mundiais nesse intervalo de tempo.
O crescimento da demanda global de trigo exigirá, para seu suprimento, maior aporte tecnológico na produção tritícola de outros países fora dos tradicionais produtores-exportadores, já com sérios fatores limitantes a aumento de área cultivada e de produtividade, a exemplo da UE, dos EUA e do Canadá. Essa agregação de tecnologia resultará em custos adicionais de produção e, por conseguinte, em elevações dos preços aos produtores e no mercado internacional.
Nesse contexto, a Argentina sobressai no cenário mundial, em condições extremamente vantajosas, para suprir uma significativa parcela do comércio internacional, em relação aos demais países produtores-exportadores desse cereal.
A partir de 1994-95, instrumentou-se naquele país um programa de Melhoramento da Qualidade do Trigo, com o fim de consolidar mercados tradicionais e atender à exigência de novos mercados. Para tanto buscam-se mudanças nos padrões atuais, pela inserção de novos parâmetros de peso hectolítrico mínimo, determinação obrigatória de proteína, sistema de bonificação e deságio por conteúdo protéico, e redução das tolerâncias máximas admitidas de matérias estranhas, grãos quebrados e/ou chochos.
Entre os competidores argentinos, tem-se aprofundado a tendência de diferenciar os trigos, para atender à seletividade dos compradores em termos de qualidade. Para aumentar a competitividade internacional do produto no país, foram criados e definidos novos conceitos para o trigo argentino, na busca de distintos trigos para distintos usos: trigo plata, trigo blando, trigo candeal e trigo forrageiro.
O trigo plata foi definido como um trigo de qualidade superior com parâmetros mínimos de qualidade assim definidos: peso hectolítrico 81, teor de proteína de 13%, ‘‘falling number’’ de 350 segundos, glúten úmido de 32%, teor de cinzas máximo de 1,7%, produto homogêneo, com alto rendimento para panificação e indústria. O trigo blando constituir-se-á de uma variedade própria para a elaboração de bolachas do tipo ‘‘crackers’’ ou ‘‘ cookies’’, ‘‘snacks’’, biscoitos, etc. O objetivo do trigo blando, por parte da indústria alimentícia, seria dispor de um preço diferencial entre trigos duros e moles, e menores preços de farinha; e, para o produtor, favorecer a maximização do rendimento da terra e maior receita com maior volume de comercialização.
Otrigo candeal, atualmente com produção inexpressiva, seria o negócio do futuro, destinado à fabricação de massas. Otrigo forrageiro, destinado para uso em ração animal, teve como principal causa de seu estabelecimento a baixa aptidão para panificação devido, principalmente, às adversidades climáticas.
Essa evolução promoverá uma diferenciação mais precisa dos trigos argentinos, significando uma melhora substancial na renda de seus produtores e no aumento da competitividade dos produtos da moagem frente a outros mercados, especialmente o brasileiro. A meta de produção do trigo argentino, a ser alcançada até o ano 2005, é de 20 milhões de toneladas. Para tanto, aguarda-se um aumento do rendimento por hectare, das atuais 2,5 toneladas para 3-3,5 toneladas por hectare, o que implicará a necessidade de elevar a produtividade em até 40%.
O trigo mais barato do mercado cederá espaço para o melhor trigo do mundo, homogêneo, adequado ao uso, ajustado às demandas, com qualidade diferenciada e comercializado a preço equivalente ao do mercado internacional. Os reflexos da nova política adotada para a triticultura argentina, em relação à produção e industrialização do trigo no Brasil, serão oportunamente objetivo de análise.
O autor é economista, técnico do Departamento de Análise Econômica da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

mockup