Três safras de café prejudicadas
Da Redação
Além de reduzir a safra de 2000/2001 de café, as consequências da seca do final do ano passado poderão estender-se até a safra 2001/2002, segundo análise do coordenador do Núcleo de Biotecnologia do Café, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Alemar Braga Rena. Ele informa que, mesmo se os anos agrícolas 2000-2001-2002 forem de normalidade climática, as safras do produto já estão comprometidas, especialmente a próxima (2000/2001).
Rena, que também é fisiologista da planta, explica que a seca causou a morte de raízes absorventes (radiculares) dos cafeeiros e, em cafeicultura, há uma regra universal: quando se observa seca de folhas e ramos, pode-se ter certeza de que as raízes já vinham morrendo há muito tempo e com maior intensidade. Ele explica que essa morte das raízes deverá ser o fator que mais afetará a recuperação do cafeeiro, como um todo, nos próximos dois anos. Mesmo que chova, o que ainda não está certo segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a absorção de água e minerais e a exploração de substâncias orgânicas está comprometida visto que, conforme o técnico, a reconstituição do sistema radicular é muito lenta.
QuebraNa semana passada o Governo divulgou que a safra de café 2000/2001 sofreu, inicialmente, uma quebra de 28% a 32% sobre o que era esperado pelo mercado. O anúncio oficial foi de 28,9 milhões de sacas. No começo do ano a estimativa variava de 38 a 42 milhões de sacas, de acordo com dados da Embrapa. Na ocasião o Governo fez um alerta: Como a pesquisa foi feita em novembro e dezembro, quando o processo de frutificação ainda não estava definido e os técnicos e produtores se basearam principalmente na imagem da florada, é provável que essa primeira previsão venha a variar com tendência de redução.
Os casos mais graves foram na região Centro-Sul do País (Minas Gerais e São Paulo), onde a produção é de mais alta qualidade, como classifica a Associação dos Países Exportadores de Café (APPC).
Rena explica em seu estudo que, além da produtividade, a qualidade dos frutos está comprometida. O primeiro efeito da seca nas cultura do café, como disse, foi a queda das folhas. Nunca se viu tanta folha no chão, enfatizou. As folhas que serão formadas não serão suficientes para satisfazer as demandas vegetativas da safra 2001/2002. Por isso tanto a produtividade como a qualidade serão inferiores, prevê.
VeranicosO Instituto de Meteorologia confirmou que o efeito La Ninã, fenômeno climático caracterizado por temperaturas moderadas e que reduz os índices pluviométricos, deve começar a se dispersar depois do mês de maio. Até lá a situação, principalmente das regiões Sul e Nordeste, deve ser de veranicos, períodos muito longos sem chuva, e quando chover será com muita força.
Os veranicos serão devastadores sobre os cafezais, que estão extremamente debilitados, conforme garante Rena. A chefe do Departamento de Café da Embrapa, Sônia Milagres, diz que a seca afeta os botões florais, que caem com um toque. Os que não caírem gerarão grãos muito pequenos, mumificados. Se as chuvas forem intensa, como prevê o Inmet, muitos botões cairão.
A solução para evitar mais problemas como esse foi sugerida pela própria Milagres: Irrigação nas fazendas. De acordo com ela, apenas 10% das fazendas de café no Brasil são dotadas de sistema de irrigação. Isso torna os cafeeiros muito vulneráveis as mudanças climáticas, completou.Quando as condições do clima melhorarem, será tarde para recuperar os cafezais danificados
Mário CesarAlém dos prejuízos causados pela última seca, os veranicos de 2000ano poderão ser catastróficos. Foto: cafezal no Norte do Paraná





