Jota Oliveira
De Londrina
Para atender essas necessidades, a agricultura enfrenta uma dificuldade fundamental: a cada dia, no mundo inteiro, diminui a mão-de-obra rural e cresce a população urbana, isto é, aumenta o número de pessoas que não produzem alimentos primários.
Calcula-se que no período 1960-1997 a população urbana brasileira cresceu 73,5%. Ou seja, 80% da população do País moravam nas cidades em 1997. Eram 46,1% em 1960. Apenas a minoria dos mais de 150 milhões de brasileiros continua no campo, produzindo alimentos e outros bens para a população das cidades.
Natalidade, morte e expectativa de vidaEmbora essa equação pareça boa, ela contém o risco de desabastecimento. No livro ‘‘Agricultura Brasileira e Reforma Agrária – uma Visão Macroeconômica’’ (Livraria e Editora Agropecuária – Guaíba, RS), o economista Ary Burger, do Rio Grande do Sul, analisa essas aparentes contradições do desenvolvimento nacional e mundial, pois o fenômeno da urbanização ocorre em todos os países, ricos e pobres.
Somente a Bulgária, com 77,5% de aumento na migração do campo para a cidade, superou no mundo a urbanização brasileira naquele período, diz Burger que, entre outras atividades, foi presidente do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul; membro da Comissão Nacional de Reforma Agrária, do Ministério da Agricultura e diretor do Banco Central.
Ainda hoje, acrescenta, muitos leigos e técnicos atribuem o aumento da população mundial (6 bilhões de pessoas neste final de século; previsão de 8 bilhões para 2020) às elevadas taxas de natalidade nos países desenvolvidos e em desenvolvimento. Burger desmistifica isso, pois, conforme diz, mesmo nos países de baixa renda a taxa de natalidade vem caindo, inclusive por uma menor taxa de fertilidade. Essa taxa de natalidade em queda, mais a diminuição da taxa de mortalidade (de 23,3 óbitos por mil, baixou para 9,75 por mil (queda de 60%), enquanto a taxa de mortalidade infantil diminuía 81% e o índice de expectativa de vida subia de 41,4 anos, em 1960, para 58,4 (+ 41%).
A soma desses fatores leva o autor a deduzir que os fenômenos responsáveis pela ‘‘taxa de sobrevivência altamente crescente’’ provocam ‘‘ainda maiores pressões sobre a demanda de alimentos e sobre os demais produtos gerados pela agricultura...’’
As informações consideradas por Ary Burger para basear sua teoria a respeito da pressão exercida pelo progresso do homem sobre a produção de alimentos, são tiradas, entre outras fontes, dos censos agropecuários de 1980 e 91; cálculos do Banco Mundial (1980) e da ONU (sobre a demografia mundial, em 1998).
Nessa análise, na parte relacionada à reforma agrária, Burger acredita que o insucesso dessa reivindicação ‘‘deve-se, principalmente, por não ter sido compreendido que a solução requer o enquadramento da reforma agrária num cenário mais amplo do que este de proporcionar um pedaço de terra àquele que não a possui..’’

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