Treino & Visita: difundindo tecnologia
Lineu Alberto Domit
A pesquisa agropecuária brasileira desenvolve milhares de projetos. Esses trabalhos resultam em informações e recomendações (tecnologias, serviços e produtos) que estão disponíveis para a assistência técnica, extensão rural, produtores rurais e outros usuários. São produtos que proporcionam melhor aproveitamento do espaço agrícola e maiores rentabilidade e produtividade das lavouras.
Entretanto, essas tecnologias nem sempre são adotadas pelos agricultores. A preocupação com essa realidade fez com que a maioria das Unidades de pesquisa criassem setores especializados pela organização e coordenação das ações de validação de tecnologia. E é desse trabalho que vamos tratar neste artigo.
A transferência dos resultados da pesquisa deve preferencialmente ter a participação direta dos pesquisadores que desenvolveram a tecnologia. O objetivo principal é que os produtores adotem as recomendações geradas pela pesquisa. Para que isso ocorra são utilizadas metodologias tradicionalmente preconizadas, tais como: cursos, palestras, encontros, dias de campo, excursões, campanhas, visitas, unidades de observação e demonstração, entre outras, que contam com a participação de técnicos e produtores.
A avaliação desse trabalho deve ser realizada através do nível de adoção dessas tecnologias e os resultados agronômicos e econômicos alcançados pelos produtores. Entretanto, aí está a principal deficiência do processo de difusão: a maioria das tecnologias são transferidas, mas não é realizada uma avaliação criteriosa sobre o índice de adoção e os fatores que influenciaram na adoção ou não.
Pouco se tem inovado na forma tradicional de fazer difusão de tecnologia. É claro, não devemos esquecer os bons resultados desses métodos, como na transferência da tecnologia do café adensado, do controle biológico da lagarta da soja com o Baculovirus anticarsia, das novas cultivares de soja da Embrapa e do manejo integrado do solo e da água em microbacias hidrográficas. Também não devemos esquecer que a era da informática e todos os avanços que acompanham-na têm facilitado bastante, principalmente, na melhoria do material didático e na rapidez e disponibilidade das novas tecnologias para os técnicos e produtores - a difusão virtual, por exemplo, já é uma realidade.
Neste contexto, o relato do trabalho desenvolvido na safra 96/97 pela Embrapa Soja em parceria com a Emater-PR e a cooperativa Copacol, mostra-se importante. No início, a idéia era mais uma proposta de treinamento (palestras), visando o lançamento do Plano de Safra 96/97, do Ministério da Agricultura e do Abastecimento. As diversas reuniões, também com a participação do Iapar, apontaram para uma nova proposta de transferência de tecnologia: o sistema de Treino & Visita.
O T&V já foi utilizado em países da Ásia e da África. Existem também relatos de utilização dessa metodologia no Nordeste brasileiro. Esse sistema visa fortalecer os elos de ligação entre pesquisadores, técnicos da assistência técnica e extensão rural e produtores rurais. Este sistema funciona basicamente pela formação e treinamento de especialistas da extensão rural, que em contato constante com a pesquisa, formam e treinam produtores do meio rural que irão repassar a informação a outros produtores.
No trabalho desenvolvido no Paraná, na safra 96/97, com a cultura da soja, as fases do Treinamento & Visita foram as seguintes:
1- Criação do Comitê de Especialistas- formado por pesquisadores, coordenadores da Emater-PR e técnicos especialistas da assistência técnica e extensão rural. Os objetivos foram nivelar o conhecimento sobre as tecnologias recomendadas para a cultura da soja, dividir a cultura por períodos, definir as tecnologias a serem transferidas por período, elaborar cronograma de atividades para todas as etapas previstas no sistema, transferir (responsabilidade dos técnicos especialistas) as tecnologias propostas para os técnicos de campo e avaliar o desenvolvimento e os resultados alcançados.
2- Transferência das tecnologias propostas- cada técnico especialista coordenou um grupo de 8 a 15 técnicos de campo, que foram os responsáveis pelo repasse das tecnologias para um grupo de produtores (8 a 15 por técnico de campo). Os técnicos de campo e os produtores também avaliaram o desenvolvimento e os resultados obtidos.
Os resultados desse primeiro ano foram animadores, principalmente pela formação de uma cadeia contínua de transferência de tecnologias, que envolve pesquisadores da Embrapa Soja, coordenadores da Emater-PR, oito técnicos especialistas das diversas regiões produtoras de soja do Paraná, 75 técnicos de campo e 821 sojicultores, totalizando 29.374 hectares de área trabalhada. Para a transferência das tecnologias foram realizados 2773 eventos (palestras, visitas, dias de campo). O trabalho resultou na adoção de aproximadamente 60% das tecnologias propostas, no aumento da produtividade em cerca de 9%, quando comparada com a média do município onde está localizada a propriedade trabalhada; no aumento do uso de inseticidas mais seletivos (biológicos e fisiológicos) e na redução das perdas na colheita. Além disso, registrou-se a ampliação do uso de outras tecnologias/informações, tais como: plantio direto, semeadura adequada, novas cultivares, tratamento de sementes e inoculação, adubação e calagem racional baseadas em análises de solo e manejo integrado de plantas daninhas.
Encerrada a safra 96/97, já estamos desenvolvendo o projeto para a safra 97/98, com algumas mudanças, como a ampliação do programa. A partir dessa safra, outras cooperativas também estarão participando. O T&V também já está sendo desenvolvido com a cultura do café e do algodão.
O balanço desse trabalho credencia o Sistema de Treino & Visita como uma alternativa para aprimorar o trabalho de difusão que atualmente está sendo desenvolvido na maioria das Instituições de Pesquisa.
O autor é pesquisador da Área de Difusão de Tecnologia da Embrapa Soja

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