Agarrar-se ao volante para subir no trator. Trabalhar sem supervisão e, às vezes, alcoolizado. Saltar da máquina deixando o motor ligado e o freio desengatado. Estas e outras manias do tratoristas podem acarretar sérios acidentes durante um dia de trabalho, além de comprometer a rentabilidade do processo produtivo e causar prejuízos significativos para a propriedade.
Dados de 2000 do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) computaram uma média de três mil acidentes/ano envolvendo trabalhadores rurais.
Segundo o instrutor do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), Alcione José Ristof, os acidentes acontecem, principalmente, pela falta de treinamento dos operadores.
''Fadiga e alcoolismo também são possíveis causas de acidentes no campo'', disse Ristof, ressaltando que a falta de supervisão, o ruído excessivo e o envelhecimento da frota comprometem ainda mais a qualidade da operação do trator.
''Mais de 50% da frota brasileira tem entre 15 e 20 anos de uso. Além disso, cada trator brasileiro é responsável por mais de 100 ha, enquanto nos Estados Unidos este número é reduzido para 38,7 ha e na Inglaterra chega a ser de apenas 11,9 ha/trator'', observou Ristof.
Durante o curso oferecido pelo Senar e pela Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep) no Centro de Treinamento Agropecuário (CTA) da Faep em Ibiporã, o instrutor ouviu diversos relatos de acidentes causados pela falta de segurança no trabalho.
De um dedo esmagado a uma perna quebrada pelas rodas do trator, os acidentes demonstraram que a imprudência dos operadores às vezes não tem limite.''Dos 750 mil tratores existentes no Brasil em 2000, apenas 200 mil eram conduzidos por operadores treinados. Por isso, o número tão alto de acidentes'', disse.
Para mudar a atitude do tratorista diante da operação das máquinas, o curso do Senar dá ênfase a assuntos como segurança na operação, manutenção preventiva, regulagem do trator, cuidados com o solo e rentabilidade. São aulas teóricas e práticas, no galpão e no campo, onde os alunos são constantemente avaliados.
Segundo Ristof, cerca de 20% dos alunos acabam reprovados e voltam a participar das aulas em busca de qualificação. Já os aprovados partem para cursos de extensão, voltados para aplicação de novas tecnologias.
Jorge de Almeida, 26, nunca havia subido em um trator até participar do curso do Senar e depois de duas semanas de aulas já se sente capaz de trabalhar como os outros tratoristas da reserva indígena de Apucaraninha, onde mora. ''Ainda tenho dificuldade com a manutenção das peças, mas com a ajuda do professor vou dominando o assunto aos poucos'', disse.
Diferente de Almeida, Ivo Wandscheer, 45, de Guairaçá (26 km a noroeste de Paranavaí), que dirige tratores há 32 anos e mesmo experiente afirma que tem muito o que aprender sobre as novas tecnologias. ''Mudou quase tudo, mas não será difícil me adapatar às novidades, pois trabalhar na terra é tudo o que sei fazer'', declarou.
Durante o curso, os tratoristas aprendem noções básicas de agricultura de precisão e, de acordo com o instrutor, são peças fundamentais para o bom funcionamento dos equipamentos de alta tecnologia. ''Falhas na manutenção da máquina podem comprometer o sistema do trator e até mesmo o planejamento de toda a propriedade'', argumentou.
Isaac da Silva Filho, 28, trabalha há 12 anos como tratorista na Funai, na reserva indígena Laranjinha, e participa pela segunda vez do curso. Ele afirma que com as mudanças cada vez mais frequentes na tecnologia é preciso se atualizar. ''No curso aprendemos que a manutenção diária é muito importante para a conservação do trator. E quem não sabe disso, acaba com a máquina'', avisou.
O operador ainda sente vontade de fazer outros cursos como o de plantio direto e uso correto de agrotóxicos. Ele acredita que não será tão difícil se acostumar aos tratores computadorizados. ''Eles estão aí para facilitar o trabalho'', ressaltou.

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