Curitiba - Os produtores orgânicos, apesar de contrários à liberação da soja transgênica para a safra 2003/2004, não devem sofrer prejuízos. Pelo menos essa é a expectativa de técnicos e produtores ligados ao setor.
  A certificação também não deve sofrer alteração, mesmo com o risco de contaminação de lavouras orgânicas por organismos geneticamente modificados.
  Mas o produtor pode ter que arcar com custos maiores.
  De acordo com o coordenador estadual de agricultura orgânica da Emater do Paraná, Iniberto Hamerschmidt, a soja orgânica não corre muito risco de contaminação. ‘‘Como a soja se autopoliniza, a presença de alguma barreira impede a contaminação’’, observou.
Risco no pólen - Já outras culturas, como o milho, estas sim correm riscos muito grandes de contágio. ‘‘Mesmo com barreiras, o vento carrega o grão de pólen do milho, que passa para as lavouras vizinhas’’, relatou.
  No entanto, a Medida Provisória 131, que libera plantio e comercialização de transgênicos para a safra do ano que vem, só vale para soja. Mesmo assim há riscos, diz Álvaro Garcia, gerente de certificação do Instituto Biodinâmico de Botucatu (IBD), uma das certificadoras que atuam no Brasil. ‘‘O grande problema é a mistura de sementes. É muito difícil para o governo federal fazer o rastreamento das sementes geneticamente modificadas’’, observou.
  Os padrões internacionais utilizados pelas certificadoras já incluem análises sobre a presença de organismos geneticamente modificados. ‘‘Com menos de 1% de contaminação, já é possível detectar a presença de transgênicos e assim o lote todo fica condenado’’, explicou Garcia. ‘‘O controle já é rigoroso e por isso deve continuar o mesmo’’, disse a coordenadora de inspeção da Organização Internacional Agropecuária (OIA-Brasil), Edna Hitomi Ogata.
Preço para certificar - Mas os custos para certificação podem aumentar, na avaliação da engenheira agrônoma da Associação de Agricultura Orgânica (AAO) Araci Kamiyama. ‘‘Em uma área em que há lavoura orgânica próxima de uma transgênica, por exemplo, o inspetor pode solicitar um número maior de análises para não haver nenhum questionamento posterior’’, afirmou.
  Mas ela confirmou que as atuais regras já são bastante rígidas quanto à presença de organismos geneticamente modificados.
  De acordo com Araci, as dúvidas de inspeção podem surgir porque ainda não há estudos técnicos sobre os riscos de contaminação. ‘‘Não sabemos qual é a distância segura para manter uma lavoura orgânica distante de outra transgênica.
  A velocidade do vento em cada região é diferente, assim como os produtos cultivados variam de local para local, o que significa que a margem de segurança depende de cada caso. É um problema muito complexo’’, argumentou.
  As associações de orgânicos e o IBD dão orientações sobre os cuidados necessários para evitar contaminação. ‘‘Não é só um serviço de auditoria, mas também de auxílio para evitar problemas mais tarde’’, disse o gerente do IBD.

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