Transgênicos retrocedem, mas não se rendem
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sexta-feira, 09 de março de 2001
Diego Cevallos Inter Press 
O plantio mundial com sementes transgênicas caiu drasticamente nos últimos dois anos, depois do auge a partir de 1996. O fato é interpretado por especialistas como o início de uma crise no setor. No entanto, os defensores e produtores de vegetais geneticamente modificados não se rendem e anunciam uma nova ofensiva para a qual não se deve baixar a guarda, pois é uma ameaça, sentencia Hope Shand, diretora da Fundação Internacional para o Progresso Rural (RAFI, em inglês), uma entidade não-governamental com sede no Canadá. A declaração foi feita em uma reunião sobre comércio e ambiente - a Conferência Internacional sobre Comércio, Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável: Perspectivas para a América Latina e o Caribe - realizada no final de fevereiro no México.
A área global ocupada por plantações transgênicas, organismos vivos modificados com genes de outras espécies para deixá-los mais resistentes a pragas ou mais produtivos, cresceu 25 vezes entre 1996 e 2000, passando de 1,7 milhão de hectares para cerca de 43 milhões. O fato deixou de sobreaviso grupos ambientalistas e também alguns governos que, ante a falta de evidências sobre as vantagens ou periculosidade desses produtos, decidiram limitar sua introdução.
Dessa forma, em meio a animados debates sobre o assunto, o ritmo anual de crescimento dos cultivos transgênicos, que no período de 1998/99 foi de 44%, baixou para 8% no último biênio, segundo um estudo do RAFI. Isso indica que o furor por esse tipo de sementes está entrando em crise, informa esse documento.
A Monsanto, principal produtora de sementes transgênicas, e alheia às preocupações que elas levantam, anunciou em fevereiro que seus planos para este ano incluem uma agressiva campanha nos Estados Unidos, Ásia e América Latina. Em especial, a Monsanto espera elevar as vendas na Argentina e no Brasil, admitiu Hendirk Verfaille, diretor-executivo da empresa.
As empresas dedicadas aos transgênicos sustentam que não existem dados conclusivos que demonstrem que as sementes por elas produzidas sejam perigosas e, ao contrário, afirmam que suas pesquisas e seu desenvolvimento salvaram milhões de pessoas da fome e permitiram fáceis e rápidas colheitas. De seu lado está o Instituto de Investigações para a Política Alimentar do Banco Mundial, para quem a produção mundial de alimentos enfrenta hoje severos riscos em razão da degradação do solo, das secas e da contaminação e por isso os produtos transgênicos são a solução, pois podem se desenvolver em condições severas, com colheitas rápidas. E esses produtos podem ter adicionadas vitaminas, argumentam as empresas transnacionais.
Em 1999, as sementes geneticamente modificadas da Monsanto foram plantadas em 34,8 milhões de hectares, 87% do total da superfície plantada com esse tipo de sementes naquele ano, afirma o estudo do RAFI. A Monsanto maneja 80% desse mercado, seguida por empresas como Aventis, Syngenta, Basf e Dupont, com percentuais que oscilam entre 3% e 7% cada uma.
No ano passado, essas sementes modificadas ou transgênicas de milho, soja, algodão e colza, na sua quase totalidade, foram produzidas nos Estados Unidos, Canadá e Argentina, mas a comercialização, que os produtores tentavam transformar em global, não pôde expandir-se ainda mais porque vários países, especialmente europeus, puseram barreiras a seu ingresso. A União Européia aprovou, no dia 14/2, novas medidas legislativas restritivas contra a produção e venda de alimentos geneticamente modificados e também estuda a possibilidade de declarar uma moratória de três anos para conceder autorizações para este tipo de produção. Em algumas partes do mundo, essas sementes transgênicas são vendidas sem identificação ou ingressam como contrabando, segundo denúncias do grupo ambientalista Greenpeace.


