O uso comercial de plantas transgênicas tem sido alvo de um grande debate mundial, onde posições acirradas são apresentadas tanto a favor, quanto contra as plantas modificadas geneticamente. São discussões que levantam questões importantes como a forma que um gene introduzido modifica o metabolismo da planta e como essa planta pode ou não alterar o meio ambiente, a saúde humana e animal. Parte da polêmica está relacionada à maneira competitiva que as empresas privadas utilizam para divulgar a tecnologia e conquistar importantes mercados.
Na primeira onda de transgênicos foram introduzidas plantas capazes de tolerar a ação de herbicidas e o ataque de insetos, características que favorecem o manejo das lavouras e, em certas situações, reduzem os custos de produção. Em breve estarão disponíveis outras características, como tolerância a fungos, bactérias, vírus e estresses abióticos, como a seca.
A engenharia genética, no entanto, permite ir além da introdução das características já vistas. Uma segunda onda de transgênicos está em fase de testes em campos experimentais e pequenas lavouras. Nessa segunda onda estão sendo incorporados genes cujas características são de interesse direto do consumidor, como o aumento da qualidade nutricional da soja, canola, milho e girassol. São exemplos plantas de soja que produzem óleo com menos gorduras saturadas – mais saudável para o consumo, grãos com maiores teores de sacarose que melhoram o sabor, assim como grãos com qualidade protéica superior, que já estão em fase final de liberação em outros países.
A segunda onda ainda deve incorporar qualidades físico-químicas que aumentam o valor agregado do produto final. Para o algodão, por exemplo, dentro de quatro a cinco anos, há previsão da disponibilização de cultivares transgênicas que produzem fibras com características sintéticas como o polyester. A introdução de três genes, retirados de uma bactéria produtora de bioplástico, promove a produção de fibras de algodão mescladas com fibras plásticas, aumentando o isolamento térmico e a resistência física destas fibras. Aliás, introdução de genes dessa mesma bactéria em plantas, deve reduzir significativamente o custo de produção do plástico biodegradável, tornando-o competitivo com o plástico derivado de petróleo.
Saúde pública – Outras ondas de transgênicos devem ampliar os benefícios da biotecnologia. A produção de plantas ‘‘vacinas’’, por exemplo, pode ajudar a controlar e combater doenças como diabetes e diarréias infantis. Outras substâncias como a produção de insulina por plantas e a inserção de fatores de crescimento para humanos já são alvo de pesquisa de várias instituições públicas e privadas no mundo inteiro. Muitos cientistas acreditam que a biotecnologia, além de reduzir os custos de produção de substâncias terapêuticas livres de patógenos e toxinas, será uma importante ferramenta na manutenção da saúde pública no futuro.
A adoção de transgênicos deve confrontar questões como determinação de preços, rotulagem, certificação, competição com produtos convencionais, valor real da característica agregada e a criação de nichos especializados. Talvez no futuro seja possível encontrar pequenas áreas produzindo espécies transgênicas com genes que agregam alto valor ao produto final. Um outro nicho, possivelmente, será ocupado por lavouras transgênicas de cultivo comercial, que conferem vantagens agronômicas com baixo custo de produção. Ainda assim, a biotecnologia não deve eliminar a produção convencional.
Para a adoção das próximas ondas é imperativo que a sociedade esteja bem informada sobre o potencial dessa tecnologia e sobre seus possíveis riscos individuais. Também é essencial que todas as medidas de proteção ambiental, de segurança à saúde e de antimonopólio das tecnologias estejam sendo aplicadas e constantemente reavaliadas. Entretanto, é importante que a sociedade esteja ciente de que a biotecnologia, em especial a engenharia genética e as plantas transgênicas, faz parte da evolução tecnológica da humanidade.
O autor é pesquisador da Embrapa Soja, sediada em Londrina.

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