Cláudia Barberato
A liberação do cultivo de materiais transgênicos deverá ser um dos maiores impedimentos para a expansão de mercado de suínos e aves no Exterior. Soja e milho são os principais componentes da alimentação destes animais. A Europa já afirmou que não vai consumir produtos de origem transgênica ou carne de animais alimentados com eles.
A informação é do pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, de Concórdia (SC), Jonas Irineu dos Santos Filho. Segundo ele, os pesquisadores europeus que participaram do Seminário sobre Competitividade e Mercado nas Cadeias de Suínos e Aves, realizado em Concórdia, em maio, deixaram clara a posição da Europa a respeito do assunto.
É possível, conforme o pesquisador brasileiro, que possam ser delimitadas áreas de cultivo, onde esses produtos não seriam usados na alimentação animal, garantindo assim uma possibilidade de abertura de mercado para as carnes destinadas à Europa.
ReconhecimentoA ampliação de mercados para a carne de suínos e aves depende também, segundo Santos, de questões burocráticas e diplomáticas, que fogem ao poder do produtor, da pesquisa, ou da indústria, e passam pelos gabinetes do Governo, Ministério da Agricultura, e outros setores responsáveis pelo comércio internacional.
‘‘É preciso colocar pessoas especializadas para tratar do assunto, defender a produção brasileira e conquistar novos mercados’’, afirma. Países como Estados Unidos, por exemplo, hoje subsidiam fortemente sua produção, impedindo a entrada de carne de países como o Brasil, onde existe um custo de produção relativamente baixo e, portanto, preço mais competitivo.
‘‘Temos também qualidade nos produtos e não se dá o valor real ao potencial de exportação do setor’’, analisa Santos. Outro impedimento está na falta de entendimento diplomático com os possíveis compradores. Europa, Japão, Estados Unidos e outros, de acordo com Santos, alegam presença de peste suína clássica nos rebanhos brasileiros, ou a doença de new castle nas aves. Há também a alegação de uso inadequado de antibióticos ou hormônios.
O pesquisador garante que o Brasil tem produção com tecnologia de ponta e, mais importante, custos baixos de produção com qualidade. ‘‘Na produção de carne de suínos e aves o produtor faz sua parte. Está produzindo com qualidade e custos de produção competitivos’’, garante o pesquisador da Embrapa.
Espera-se que, com a nova rodada da Organização Mundial do Comércio, prevista para ainda este semestre, sejam reestudadas essas imperfeições de mercado.
Com relação aos suínos há restrições da Europa, Estados Unidos e Japão, quanto à possível presença da peste suína clássica (PSC) no Brasil. O País já vende para Hong Kong e Argentina. A Comunidade Européia e o Japão, além dos Estados Unidos, hoje não permitem entrada de produtos in natura ou não-curados/cozidos com prazo de pelo menos seis meses de fabricação.
Rio Grande do Sul e Santa Catarina são Estados livres de PSC e febre aftosa, ‘‘uma luta dos produtores através da eliminação de plantéis doentes e vacinação.’’ O Paraná será um dos próximos Estados a pedir a liberação. Mas o Japão, por exemplo, só recebe aves de países livres e não de regiões ou Estados.
Mas é possível entrar em outros mercados, segundo o pesquisador. Na Europa principalmente, um das maiores consumidores de suínos do mundo, depois da China. ‘‘A China, além de maior consumidor, é o maior produtor de carne suína do mundo.’’ Os Estados Unidos têm um consumo anual per capita, de bovinos, suínos e aves, da ordem de 120 quilos. No Brasil esse consumo está dividido em 34 quilos/per capita/ano de bovinos, 24 quilos/per capita/ano de aves, 10 quilos/per capita/ano de suínos, sem contar os mercados de peixes, vitelos, e outros.
No mercado brasileiro os produtores de suínos têm trabalhado, através da associação brasileira de criadores, para aumentar o consumo, com marketing da carne e esclarecimentos à população sobre os benefícios de consumi-la.
No caso das aves, as agroindústrias com integração dos produtores também trabalha para promover o consumo. ‘‘O frango é a proteína mais barata do País, o que viabiliza o consumo crescente da carne. Hoje é a segunda carne mais consumida no Brasil, com 24 kg/ano/per capita, trabalho decorrente de tecnologia e qualidade de produção.’’
O Brasil, segundo o pesquisador, é o terceiro maior exportador de aves do mundo, com 600 a 700 milhões de toneladas/anuais, o que significa apenas 14% da produção. Se forem abertos novos mercados, há potencial para abastecer possíveis alterações de consumo interno e ainda exportar mais.
Porque exportarQuando o mercado interno é estabilizado e o custo de produção relativamente baixo, somado ao potencial de produzir mais, conseguir novos mercados significa, além do escoamento de produção, ganhos maiores para os produtores.
Mesmo que a capacidade de alterar preço no mercado externo seja menor, tem-se uma certa estabilidade. ‘‘O mercado internacional é escoador do excedente de produção e oferece preços razoáveis. Há espaço para pequenos, médios e grandes produtores venderem, desde que não haja fortes subsídios de outros países.’’

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