Transgênese, coisa boa ou ruim
Jota Oliveira
No ano passado, em visita ao Japão, o ministro brasileiro da Agricultura, Francisco Turra, tomou conhecimento das restrições dos consumidores daquele país a produtos transgênicos, ou seja, modificados geneticamente. Os japoneses preferem a soja orgânica. Hoje ainda prossegue, no Brasil, a polêmica a respeito do uso comercial daquela tecnologia, não apenas para aplicação na soja, mas também em outras culturas.
No Rio Grande do Sul, o governador Olívio Dutra quer declarar o Estado ‘‘área livre de produtos transgênicos’’.
Enquanto isso, a Monsanto, principal empresa envolvida na polêmica gerada pelo assunto lavouras transgênicas, anuncia para outubro ou setembro deste ano o lançamento, no mercado, da semente de soja resistente ao herbicida Roundup, e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul promete para dentro de dois anos a soja transgênica resistente à lagarta, enquanto a Embrapa Trigo (sediada em Passo Fundo, RS) diz-se apta a lançar o feijão geneticamente modificado. Algumas lavradores gaúchos não esperaram a aprovação, pelo governo Federal, do uso comercial de produtos transgênicos, e plantaram soja modificada. Foram processados.
A Monsanto trouxe dos Estados Unidos, em defesa da transgênese, artigo escrito pelo ex-Presidente americano, Jimmy Carter, publicado na revista Progressive Farmer, farovável àquela tecnologia. No Paraná, o Conselho Regional de Engenharia, Agronomia e Arquitetura (CREA-PR) entra no debate porque, diz seu presidente, Ivo Gilberto Martins, ‘‘a sociedade paranaense tem que estar bem informada sobre o assunto, que envolve diretamente a qualidade de vida do nosso povo’’ (Revista CREA-PR, n+ 2, ano 1 - novembro/dezembro de 1998).
Entre outras atividades em cumprimento desse objetivo, o CREA-PR participou no ano passado, em Brasília, de seminário que aprovou documento, alertando entre outras coisas, segundo a revista do Conselho: 1 - ‘‘O plantio de sementes transgênicas, tolerantes a herbicida, sem um controle adequado e, pior, antes de uma avaliação e comprovação cientificamente criteriosa, pode acarretar danos irreversíveis, não apenas ao meio ambiente, mas à própria espécie humana’’; 2 - ‘‘não foi apresentada nenhuma análise do risco de derivação genética da soja transgênica no Brasil, isto é, se o gene alienígena pode ser transferido para espécies nativas’’; 3 - o consumo precipitado de alimentos transgênicos, ou contendo ingredientes de origem transgênica, por sua vez, pode acarretar danos à saúde pública, inclusive porque insuficientemente avaliados em seus riscos toxicológicos; 4 - a introdução de agricultura transgênica e, mais que isso, a defesa dessa tecnologia em foros internacionais, por parte do governo brasileiro, pode trazer pesados prejuízos econômicos ao Brasil, dificultando as exportações agrícolas, principalmente para países europeus, onde os transgênicos são rejeitados...’’
No RS, informa a Agência Estado, o tema ‘‘transgênese’’ vai a debate amplo, com a participação de Universidades, instituições públicas e privadas de pesquisa, consumidores, produtores e trabalhadores rurais. A mobilização será concentrada em nove seminários regionais, de março a agosto deste ano. Desses seminários sairá a posição que a sociedade civil encaminhará à Secretaria da Agricultura. Os seminários serão realizados em Pelotas, dia 25 de março; Bagé (9 de abril); Santa Maria (29 e 30 de abril); Passo Fundo (13 de maio); Santa Cruz (28 de maio); Ijuí (10 de junho); Caxias do Sul (24 de junho) e Uruguaiana (17 de julho). O último será em Porto Alegre, dias 19 e 20 de agosto.
Participarão também dos seminários o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), Movimento dos Pequenos Agricultores, Federação dos Trabalhadores na Agricultura, Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul, Federação das Cooperativas Agropecuárias e Central Única dos Trabalhadores.
As interrogações precisam de respostas lastreadas pela comunidade científica interna, isto é, brasileira. Esta comunidade não é unânime, mas também a sociedade brasileira está interessada no assunto, e participando, seja através de órgãos oficiais como os ministérios da Agricultura e da Ciência e Tecnologia, seja diretamente ou representada por entidades como o CREA-PR, federações da Agricultura (patronais) e de trabalhadores na Agricultura, entidades de pesquisa, extensão rural, ou a CUT. Assim, qualquer que seja a decisão, será tomada pela parte mais diretamente interessada - o total da sociedade brasileira.
O autor é editor da Folha Rural.

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