A experiência de Félix Garnero, argentino da província de Santa Fé, em El Trebor, e outros 10 produtores de leite, serve de exemplo aos produtores brasileiros que pretendem não só viabilizar a pecuária leiteira, mas obter maior rentabilidade com a atividade. Através de compras compartilhadas de maquinaria e outros insumos da produção, obtém resultados positivos com o leite e se mantém competitivos na atividade.
Garnero veio ao Brasil para um seminário Brasil-Argentina de produção de leite, em Paraúbeba (MG), a convite da Bósio Ordenhadeiras, de Londrina. Depois fez palestra em Londrina, para produtores e dirigentes da Confederação Paranaense das Cooperativas (Confepar).
Em crescimentoGarnero tem uma propriedade de 250 hectares, 80 hectares de soja e 130 hectares para produção de leite, administrada em conjunto com o pai e uma irmã. Lá existem 140 vacas que são ordenhadas duas vezes ao dia. Vacas secas somam 40 cabeças e o restante, para somar 400 animais, é de bezerros e novilhas.
A propriedade, segundo o produtor, está em processo de crescimento. Atualmente a produção fica em torno de três mil a 3100 litros diários de leite. A expectativa é chegar aos quatro mil litros/dia. Garnero recebe 17 cents de dólar pelo litro de leite, valor que ele considera razoável.
O custo de produção equivale a oito litros/dia/cabeça com a alimentação dos animais e mais dois litros de leite diários para pagar o ordenhador, que não é funcionário da propriedade, mas um meeiro da produção. Recebe porcentagem sobre produção total e sobre a qualidade do leite.
Os animais são criados a pasto, favorecidos pelos pampas argentinos, e suplementados com grãos (sorgo, milho), além do concentrado. Para atingir a produção de quatro mil litros de leite/dia, calcula Garnero, será preciso ter 200 vacas em lactação.
Compras compartilhadas ‘‘Como pequeno produtor fica difícil investir no crescimento da atividade. O jeito é juntar-se a outros produtores, para crescer’’. O acesso a novas técnicas, maquinaria e tecnologias só foi permitido, garante Garnero, pelo trabalho conjunto dos produtores.
O grupo começou suas atividades em 1974 e, de lá para cá, garantiu aos produtores acesso a novas técnicas e tecnologias a custos mais baixos; muitas vezes viabilizando a atividade onde antes não seria possível sequer produzir para sobrevivência.
‘‘Tudo começou com a compra, compartilhada, de máquinas. Nessas compras, cada produtor paga um percentual, de acordo com o tamanho de sua propriedade ou seu poder aquisitivo. O uso das máquinas é organizado e escalonado. O grau de participação nas compras também não é rígido. Compra quem precisa, quem quer, quem pode.
Acesso a tecnologiaO grupo de produtores tem pequenas áreas de cultivo e seria, isoladamente, difícil cada um deles fazer investimentos na área de maquinaria agrícola ou outros setores, como a compra de sêmen para a inseminação artificial do rebanho. Com a compra conjunta foi possível montar uma central, que não só compra sêmen a ser usado nos rebanhos, mas também treina inseminadores. O centro funciona desde 1982.
Há também compra de semente, para instalação de campos de produção. Os insumos, em alguns casos, também são comprados em sociedade. Outra parte é comprada via cooperativa local. Esse grupo de 11 produtores é sócio da cooperativa de El Trebor, que tem no total 15 cooperados, com uma produção de leite de 17 a 18 mil litros diários.
O grupo de cooperação tem seu controle interno, muito mais na palavra de cada produtor do que em contratos oficiais. Eles fazem reuniões mensais em que cada um coloca sua necessidade. Sempre houve vontade de ‘‘legalizar’’ a sociedade, mas a partir do momento que ela se tornasse um tipo de cooperativa, os custos aumentariam muito. Por enquanto tem sido mais barato usar a estrutura da cooperativa quando necessário e fazer negócios em grupo.
Para que o trabalho da sociedade desse certo foi preciso que as propriedades ficassem bem próximas. Isso não só viabiliza a troca de informações como também promove melhorias sociais nas propriedades. Um exemplo foi a instalação da telefonia rural, em 1985. O grupo mantém um veículo comunitário para transporte de crianças à escola.
Nem sempre os 11 produtores compram as mesmas coisas. Todo negócio é fechado com notas fiscais separadas; cada um recebe a sua, de acordo com o percentual que irá pagar. ‘‘Conseguimos também melhores formas de pagamentos ou descontos.’’ Na compra de um trator, por exemplo, um produtor, sozinho, teria que desembolsar cerca de US$35 mil.
A vida útil da máquina, afirma Garnero, é de 10 anos em média. Depois disso cai o rendimento do trabalho e haveria necessidade de comprar nova máquina, inviável para os pequenos e médios produtores. Com a compra comunitária é possível ter máquinas melhores, fazer manutenção e conseguir rentabilidade.
Há três anos o grupo comprou novos tratores que hoje fazem o trabalho pesado nos propriedades, que totalizam três mil hectares de plantio. Há também semeadoras, plantadoras, ensiladoras e outras máquinas que são compartilhadas, baixando os custos não só de horas/trabalho, mas de manutenção das máquinas. No total são 20 máquinas.
Sem dívidasCada produtor pôde, nos últimos anos, segundo Garnero, melhorar a produtividade agrícola e pecuária (os rebanhos têm média de produção de 20 litros/dia). ‘‘Isto porque, além de sua disposição de trabalhar, o produtor não tem dívidas financeiras, não sobrecarrega a atividade e enxerga crescimento no futuro.’’
Vários produtores estão sendo beneficiados com as compras compartilhadas. A menor área do grupo de El Trebor é de 20 hectares. O dono da propriedade já arrendou mais 20 hectares e tem produção diária de 800 litros de leite.‘‘Sem participar do grupo, ficaria difícil conseguir esse crescimento.’’
Para fazer a agricultura ou a alimentação destinada ao rebanho leiteiro, os produtores organizam um plantio escalonado das culturas. Há sempre uma reunião mensal, com um técnico do programa Câmbio Rural, do INTA (Instituto de Pesquisa Agropecuária), da Argentina, para planejar suas ações. Além de assuntos técnicos da atividade, discutem política fiscal e tributária, mercado interno, exportação, entre outros.
Hoje na Argentina, segundo Garnero, existem vários empreendimentos semelhentes ao grupo de El Trebor. Ele acredita que é possível melhorar ainda mais a atividade a partir de sociedades como esta, atuando na compra e venda da produção, compra de insumos, sementes e outros equipamentos, sempre a custos menores.
Há pouco tempo Garnero mudou as instalações de ordenha de sua propriedade. Num novo sistema de ordenha (lado a lado) conseguiu reduzir para uma hora e meia o tempo de ordenha dos animais, que antes era de quatro horas. Ele afirma que o investimento só foi possível graças ao trabalho em grupo que acaba reduzindo os custos de produção da atividade e há sobras para novos investimentos.

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