O tio Carlinho, um mineiro de fala mansa, muito meticuloso, trabalhador, era casado com tia Neuma, irmã de minha mãe. Trabalhava na roça e como todos os agricultores da época vivia numa situação difícil. Certo dia resolveu ir para a cidade, pois fervilhava a pequena cidade com gente chegando todos os dias no trem das 9 horas. Eram pessoas em busca de melhores dias, nas terras roxas do norte paranaense. Famílias chegavam de todos os lugares do Brasil. Tio Carlinhos, que um dia também desembarcou numa pequena cidade do Estado de São Paulo para trabalhar no sítio de meus avós, logo se encantou com tia Neuma e pouco tempo depois se casaram. Mas sem profissão na cidade, resolveu comprar uma charrete para trabalhar na "praça" da estação de ferro, pois tinha as duas éguas que trouxera do sítio.

Tio estava feliz da vida, pois o rendimento era bom e dava para o sustento da família e ainda sobrava uns troquinhos para uma eventualidade.

Mas era sabido que as charretes eram o meio de transportes mais usados pelas "mulheres de vida fácil" da época. Isso causava um ciúme danado na Neuma. Frequentemente ela ia até a igreja desabafar com o padre. Tio Carlinhos sempre contornava a situação, com corte de tecido, sapatos novos, uma sombrinha bem colorida e outros presentes. Não que o marido fosse danado para as coisas.

Os negócios iam bem até que um dia, com as economias, tio achou melhor comprar uma charanga, nome dado na época aos Ford 1929 de quatro portas, para pôr na praça, como carro de aluguel. Orgulhoso e garboso, dizia que agora ele era "chofer" de praça. Comprou até um boné. Mas como não sabia dirigir, chamou um rapaz catarinense, por nome Bira, que trabalhava na cozinha do hotelzinho da cidade e, além de ser um bom cozinheiro, também era bom motorista. Com o tempo o Bira se tornou genro do tio.

Imagem ilustrativa da imagem Tio Carlinhos. Ah, o tio Carlinhos...



Foram meses de aprendizado, até que enfim o tio se tornou um verdadeiro chofer de praça.

Numa ocasião, foi fazer uma "corrida" com uma moça do "baixo meretrício" e não é que na estrada caiu a roda da frente da charanga, num local ermo. Lá ficou horas a espera do socorro, quando ia passando o seu padre com uma charrete da capela. Muito constrangido, o tio foi logo explicando a situação e pedindo carona para o padre. Situação difícil para o sacerdote ter de levar tio Carlinhos e a moça na charrete até a cidade. O que as fofoqueiras iriam dizer?

Combinaram que na entrada de cidade a moça desceria e eles seguiriam a viagem. Após andarem alguns quilômetros, vem de encontro o velório do Quinzinho, que morrera no dia anterior, sendo acompanhado por um caminhão com o pessoal rezando e cantando hinos de louvor. E agora? Tio Carlinhos pulou da charrete antes e se embrenhou no mato, deixando o padre a sós com a moça. Com o olhar indignado dos passageiros do caminhão, o que dizer?

O padre no outro dia pediu a transferência. E o tio Carlinhos...

Sidney Girotto, leitor da FOLHA

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