Tijolo de raspa de couro bovino
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 13 de junho de 1997
Marcos Zanatta Maringá 
AproveitamentoPesquisador do Nepron manipulando material em laboratórioO Núcleo de Estudos em Produtos Naturais (Nepron), da Universidade Estadual de Maringá (UEM), desistiu de buscar parceria para colocar em prática a pesquisa que acabaria com o problema da destinação final do pó de rebaixadeira, material conhecido como raspa de couro. Hoje o produto, rejeito do processo de curtimento do couro, não tem utilidade e por ser poluente causa preocupação para as empresas do setor.
A pesquisa, que envolveu dez profissionais da UEM e demorou dois anos para ser concluída, consegue extrair da raspa do couro uma proteína com alto grau de pureza; recupera parte do cromo utilizado no processo de curtimento e utiliza o rejeito final para a fabricação de tijolos mais resistentes. O primeiro passo, explica o professor Sérgio Paulo Severo de Souza Diniz, coordenador do Nepron, foi buscar a proteína existente na raspa de couro.
VantagensAtravés do processo de ultracentrifugação, utilizado para a produção de leite em pó, os pesquisadores conseguiram extrair a proteína. O método foi aperfeiçoado, buscando selecionar o material por membranas que garantem uma pureza de até 95% do produto, explica Diniz. A proteína resultante do processo, segundo ele, pode ser utilizada para a produção de ração animal ou mesmo em cosméticos, devido ao alto grau de concentração de colágeno.
Marcos NegriniProfessor Sérgio Paulo Severo de Souza Diniz, coordenador do Nepron
Hoje, a proteína para ração animal e o colágeno utilizado na indústria de cosméticos, são adquiridos de empresas químicas. O professor Sérgio Paulo Diniz não tem um comparativo de preços do produto resultante da pesquisa e o utilizado no mercado hoje. A vantagem com certeza deve ser da proteína obtida da raspa de couro, que é um material descartado pelos curtumes, analisa.
Outra vantagem apresentada pela pesquisa, segundo ele, é que no mesmo processo de obtenção da proteína, é possível recuperar boa parte do cromo utilizado no curtimento do couro. Diniz comenta que se um ou vários curtumes montassem um laboratório para processar a raspa, poderiam reduzir a necessidade de aquisição do cromo, ao mesmo tempo que teriam a proteína, produto com mercado garantido.
O tijoloO que sobrar da raspa pode ainda ser utilizado na fabricação de tijolos, como comprovou outra pesquisa paralela, afirma Diniz. Ele explica que a raspa do couro, por ser um material resistente, ajuda a reforçar os tijolos, que são feitos de material comum, ou seja, o barro de olarias. O papel da raspa é apenas reforçar o produto final, criando mais resistência ao tijolo em comparação com o material hoje existente no mercado. Seria um tijolo com alicerce, arrisca o professor. A falta de interesse da iniciativa privada e do próprio Estado, no entanto, impedem que o resultado da pesquisa seja avaliado na prática, através do uso dos tijolos em obras específicas.
Algumas olarias do interior de São Paulo já utilizam a raspa na fabricação de tijolos e de blocos de concreto, mas não existe uma avaliação final das vantagens do produto. Outra aplicação recente da raspa, segundo alguns técnicos de curtimento que trabalham na região, é o aglomerado do pó de rebaixadeira. O produto final é utilizado na fabricação de palmilhas para sapatos. O problema, dizem os técnicos, é que a produção de raspa é bem maior do que a necessidade de olarias ou de indústrias de calçados.
O professor Sérgio Paulo Diniz lamenta que os curtumes e o Governo do Estado não mostrem interesse pela pesquisa. Apresentamos os resultados para o Estado e chegamos a abrir negociação com as empresas do setor, mas nada prosperou e hoje a raspa continua poluindo o ambiente, lamenta. Ele compara que para cada 100 quilos de raspa, é possível extrair 33 quilos de proteína. Um alto índice se levarmos em conta que hoje a raspa é um dejeto industrial sem utilidade, diz.
A produção de raspa não é controlada pelos curtumes. A quantidade depende da espessura final do couro. Quanto mais fino deve ficar o couro, mais raspa será retirada, e por isso não existe uma média de dejetos por quilo produzido. Nos curtumes, a raspa é depositada em áreas sem proteção, já que o volume é muito grande e não existe um controle sobre a movimentação do produto para evitar a poluição ambiental.


