AproveitamentoPesquisador do Nepron manipulando material em laboratórioO Núcleo de Estudos em Produtos Naturais (Nepron), da Universidade Estadual de Maringá (UEM), desistiu de buscar parceria para colocar em prática a pesquisa que acabaria com o problema da destinação final do ‘‘pó de rebaixadeira’’, material conhecido como raspa de couro. Hoje o produto, rejeito do processo de curtimento do couro, não tem utilidade e por ser poluente causa preocupação para as empresas do setor.
A pesquisa, que envolveu dez profissionais da UEM e demorou dois anos para ser concluída, consegue extrair da raspa do couro uma proteína com alto grau de pureza; recupera parte do cromo utilizado no processo de curtimento e utiliza o rejeito final para a fabricação de tijolos mais resistentes. O primeiro passo, explica o professor Sérgio Paulo Severo de Souza Diniz, coordenador do Nepron, foi buscar a proteína existente na raspa de couro.
VantagensAtravés do processo de ultracentrifugação, utilizado para a produção de leite em pó, os pesquisadores conseguiram extrair a proteína. ‘‘O método foi aperfeiçoado, buscando selecionar o material por membranas que garantem uma pureza de até 95% do produto’’, explica Diniz. A proteína resultante do processo, segundo ele, pode ser utilizada para a produção de ração animal ou mesmo em cosméticos, devido ao alto grau de concentração de colágeno.
Marcos NegriniProfessor Sérgio Paulo Severo de Souza Diniz, coordenador do Nepron
Hoje, a proteína para ração animal e o colágeno utilizado na indústria de cosméticos, são adquiridos de empresas químicas. O professor Sérgio Paulo Diniz não tem um comparativo de preços do produto resultante da pesquisa e o utilizado no mercado hoje. ‘‘A vantagem com certeza deve ser da proteína obtida da raspa de couro, que é um material descartado pelos curtumes’’, analisa.
Outra vantagem apresentada pela pesquisa, segundo ele, é que no mesmo processo de obtenção da proteína, é possível recuperar boa parte do cromo utilizado no curtimento do couro. Diniz comenta que se um ou vários curtumes montassem um laboratório para processar a raspa, poderiam reduzir a necessidade de aquisição do cromo, ao mesmo tempo que teriam a proteína, produto com mercado garantido.
O tijolo‘‘O que sobrar da raspa pode ainda ser utilizado na fabricação de tijolos, como comprovou outra pesquisa paralela’’, afirma Diniz. Ele explica que a raspa do couro, por ser um material resistente, ajuda a reforçar os tijolos, que são feitos de material comum, ou seja, o barro de olarias. O papel da raspa é apenas reforçar o produto final, criando mais resistência ao tijolo em comparação com o material hoje existente no mercado. ‘‘Seria um tijolo com alicerce’’, arrisca o professor. A falta de interesse da iniciativa privada e do próprio Estado, no entanto, impedem que o resultado da pesquisa seja avaliado na prática, através do uso dos tijolos em obras específicas.
Algumas olarias do interior de São Paulo já utilizam a raspa na fabricação de tijolos e de blocos de concreto, mas não existe uma avaliação final das vantagens do produto. Outra aplicação recente da raspa, segundo alguns técnicos de curtimento que trabalham na região, é o aglomerado do pó de rebaixadeira. O produto final é utilizado na fabricação de palmilhas para sapatos. O problema, dizem os técnicos, é que a produção de raspa é bem maior do que a necessidade de olarias ou de indústrias de calçados.
O professor Sérgio Paulo Diniz lamenta que os curtumes e o Governo do Estado não mostrem interesse pela pesquisa. ‘‘Apresentamos os resultados para o Estado e chegamos a abrir negociação com as empresas do setor, mas nada prosperou e hoje a raspa continua poluindo o ambiente’’, lamenta. Ele compara que para cada 100 quilos de raspa, é possível extrair 33 quilos de proteína. ‘‘Um alto índice se levarmos em conta que hoje a raspa é um dejeto industrial sem utilidade’’, diz.
A produção de raspa não é controlada pelos curtumes. A quantidade depende da espessura final do couro. Quanto mais fino deve ficar o couro, mais raspa será retirada, e por isso não existe uma média de dejetos por quilo produzido. Nos curtumes, a raspa é depositada em áreas sem proteção, já que o volume é muito grande e não existe um controle sobre a movimentação do produto para evitar a poluição ambiental.

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