Tia Cida, uma mãezona para todos
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sábado, 04 de janeiro de 2020
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Aos 10 anos de idade conheci a Tia Cida, quando fui, com minha irmã e seu namorado, visitar a família Micheletti. Além de gostar do passeio, simpatizei logo com ela. Tia Cida morava na zona rural de Rolândia, mais precisamente num patrimônio chamado Bartira. Por ser tia de meu cunhado, e por essas boas voltas que o mundo costuma dar, alguns anos mais tarde iria reencontrá-la na cidade de Londrina.
Tia Cida, como todos a chamávamos, era uma pessoa espetacular! Muito simples, branquinha, cabelos crespos, típica italiana, falava alto, reforçando os erres e dando enormes gargalhadas. Não me lembro de tê-la visto triste ou reclamando, estava sempre alegre, cantando, trabalhando, e, sua casa, humilde e sempre cheia de gente, era referência para todo mundo: parentes, amigos, vizinhos, amigos dos amigos e dos vizinhos, quem viesse e de onde viesse, tinha parada obrigatória na pequena casa localizada na Vila Yara, em Londrina, onde sempre cabia mais um, mais dois...Ela dava um jeito. Fazia uma comida gostosa, a qualquer hora que chegasse ela acolhia e servia com aquele jeito alegre e carinhoso. Amorosa, costumava desfilar os nomes dos filhos e sobrinhos antes de chegar àquele a quem se dirigia: “ Ô Pascoá, Nenê, Dila, Dorivá..., não, não, ô João..."
Alma aberta, nunca julgava a vida de ninguém, escutava, comentava, aceitava e, principalmente, amava as pessoas. Era daquelas pessoas que se costumava dizer "não tinha boca para nada, era uma bondade só".
Não somente uma tia, mas uma mãezona para todos, principalmente quando nascia um bebê na família, ou na vizinhança, era a que mais cuidava. Os parentes brincavam ao dizer que os bebês iriam ficar surdos porque a Tia Cida falava muito alto, como boa italiana que era...mas, ao contrário, todos, desde o mais novo até os mais velhos, a adoravam. Porque ela era assim, um tipo de pessoa da qual emanava uma alegria contagiante, uma figura muito especial mesmo. Ia falando, alto e cantado, com seu sotaque italiano e a gente ficava olhando, sorrindo, encantada, querendo ficar por ali, só para ter o prazer de ouvi-la...
Quando viemos para Londrina, fomos morar perto da sua casa e, com certeza, ela estava sempre à disposição para ajudar e nos acolher em sua casa.
Um dia, infelizmente, a Tia Cida ficou doente. Apesar de querer se mostrar forte, percebi, numa visita, que o alegre sorriso parecia se apagar do seu rosto e seus olhos mostravam certa tristeza. Mas não reclamava, parecendo conformada. Chorei disfarçadamente ao vê-la tão diferente daquela mulher forte e risonha. Sua casa, antes barulhenta e alegre, agora era uma tristeza só e sua família não conseguia disfarçar a dor pelo sofrimento daquela pessoa tão querida. E então a Tia Cida se foi para junto de Deus.
Depois de algum tempo, voltei lá na casa da Tia Cida. Senti um grande vazio no coração e, enquanto a família conversava, em pensamento fui me ausentando para um cantinho do passado. Na mesma sala ressoava sua risada cristalina, seu jeito de chamar as pessoas gritando ou de cantarolar desafinado, trocando as letras das músicas.
O tempo vai passando e mudando os lugares, as pessoas, as coisas. Mas como tudo aquilo que é bom e simples permanece, a lembrança da Tia Cida, tão amável, bondosa e querida, permanecerá para sempre em meu coração e, com certeza, no coração de todas as pessoas que tiveram a felicidade de tê-la conhecido!
Estela Maria Frederico Ferreira é leitora da FOLHA.


