Tempo de plantar... tempo de colher - Cristina Côrtes
Tempo de plantar... tempo de colher
Cristina Côrtes
Todo final de ano é quase inevitável a tentação das pessoas fazerem um balanço, ou uma reflexão de suas vidas, de suas atividades, de seus planos. Analisar se o ano que passou foi melhor ou pior, comparar resultados alcançados, planejar o futuro, sempre com a esperança de que o próximo ano seja melhor.
Para o produtor rural, este período é um pouco diferente. Enquanto tem muita gente programando suas férias, o agricultor está em plena atividade. Em algumas regiões, preparando o solo; em outras, jogando sementes. E mesmo nas áreas já plantadas, eles têm que ficar acompanhando dia-a-dia ou semana-a-semana o desenvolvimento das plantas, o aparecimento de pragas, para não ter surpresas ruins na hora da colheita.
Ao longo das muitas entrevistas com agricultores e visitas a propriedades, observo que a cada início da safra de verão esses produtores renovam suas esperanças. Com ou sem política agrícola, tendo preço mínimo ou não, com ou sem garantia do Governo, esses trabalhadores teimosamente semeiam a terra.
Este ano, especialmente, o produtor tem mais uma preocupação com o volume de chuvas que promete ser excessivo por causa do El Ni¤o e causar estragos em algumas regiões. Mas nem mesmo as previsões pessimistas impedem que o plantio seja feito, porque o agricultor é antes de tudo um homem de fé.
Talvez a convivência tão próxima com a Natureza tenha ensinado ao homem do campo medir o tempo e os resultados de maneira diferente do homem urbano. Na cidade todos correm atrás do tempo, são impacientes, imediatistas; tudo deveria ter sido feito ontem. Muitas vezes até os computadores ficam lentos diante da nossa pressa.
Quem vive no campo aprende desde cedo a enxergar as coisas de outra maneira. Precisa saber que, por melhor que seja a tecnologia usada, a planta tem o seu tempo para crescer; a fruta tem seu tempo para amadurecer. A Mãe Natureza ensina que é preciso saber que existe uma hora de plantar...e a hora de colher.
Mas, a sabedoria da Natureza deveria ser mais respeitada tanto no campo como na cidade, e é preciso compreender que, na verdade, nunca existiu nem poderá existir uma dicotomia entre esses dois espaços. Afinal, tudo é uma coisa só. De maneiras diferentes, cada um tem valor, e um depende do outro.
Uma vez ouvi um comentário de um agricultor que destacava a diferença entre a atividade agrícola e outras. Dizia que até mesmo a pecuária, apesar de ambas serem atividades rurais, era muito diferentes, porque o agricultor precisa ter muito mais fé, porque os riscos na lavoura são muito maiores. Mesmo fazendo tudo certo, temos que contar com a colaboração do tempo, e disso só Deus é que sabe, dizia.
Mas, com a globalização por todo o canto, sabemos que todos estamos sempre correndo riscos, todos os dias. O que talvez precisamos lembrar, de vez em quando, é que nem tudo pode estar sob o nosso controle, e que apesar disso temos que tentar fazer o melhor.
A autora é jornalista; redatora da Folha Rural.





