Arquivo FolhaPrevendoGalassini, presidente da Coamo: ‘‘Quem não tem dívidas sentirá os benefícios do Plano Real’’Fundada em 1970, a Cooperativa Agropecuária Mourãoense (Coamo) tem faturamento anual superior a R$ 800 milhões, 19 mil associados em 36 municípios do Paraná e de Santa Catarina e um parque industrial que não pára de crescer. É a maior cooperativa agrícola do Brasi, e seu presidente há mais de 20 anos, José Aroldo Gallassini, não esconde de ninguém: ‘‘Estamos indo muito bem e temos sempre o que comemorar no Dia do Cooperativismo’’.
No dia em que recebeu a ‘‘Folha’’, por exemplo, Gallassini tinha mais um motivo para comemorar: a última edição ‘‘Melhores e Maiores’’ da revista ‘‘Exame’’, colocou a Coamo em 70º lugar entre as maiores empresas do País, num ‘‘pulo’’ de 20 posições em relação à 90ª posição alcançada no ano passado. No setor de comércio atacadista ela ficou em segundo lugar, perdendo apenas para a Souza Cruz.
Fusão, a tendênciaEmbora tenha motivos para comemorar, Galassini admite que, se fosse criada hoje, a Coamo enfrentaria mais dificulddes para vencer. Criada na década de 70, quando se expandiu a mecanização das lavouras, havia o incentivo de financiamentos de longo preazo e juros baratos, ela criou força para superar ‘‘todas as fases difíceis da economia brasileira’’.
O cooperativista lembra que a Coamo ‘‘cresceu junto com a mecanização’’. Hoje, ele analisa, uma nova cooperativa teria muito mais dificuldades’’, para alcançar o sucesso, porque ‘‘a agricultura está descapitalizada e o crescimento seria muito mais lento’’. Mas, ele essalva. ‘‘Sempre se cria uma cooperativa na dificuldade e, também na dificuldade, pode dar derto, porque é aí que as pessoas se ajudam e procuram solucionar seus problemas.
Quanto ao futuro, Galassini observa que o mundo está vivendo ‘‘um momento de fusão de empresas’’. No Brasil não vai ser diferente. Por isto, aponta uma tendência pela fusão de cooperativas. ‘‘Vamos ter uma cooperativa forte por região. Isto já está acontecendo lentamente no Rio Grande do Sul e no Paraná. A união de cooperativas que hoje estão em dificuldades vai fazer surgir grandes cooperativas, para poder competir com os grandes grupos’’, argumenta.
No mundo, hoje, ‘‘compete quem tem força econômica’’, analisa Galassini. Ele acrescenta que ‘‘está sendo assim em outros setores e no cooperativismo não será diferente. A cooperativa pequena que não se unir e permanecer fraca, corre o risco de desaparecer’’.
MercosulNa opinião do presidente da Coamo, por enquanto o Mercosul ‘‘não está benéfico’’. O problema é bem conhecido: ‘‘Temos só um país que nos traz o problema de competição, a Argentina’’. Os argentinos competem com os brasileiros em soja, trigo, milho, carne e leite. ‘‘E os governos não estão fazendo aquilo que fez a Comunidade Européia, a equalização de custos para que todos possam competir nas mesmas condições. Lá (Europa) há subsídios para isso. Nós estamos ainda engatinhando. Temos que ter igualdade de condições, porque senão a Argentina coloca seus produtos aqui, compete com maior rentabilidade no mercado internacional e nós ficamos prejudicados’’, adverte Galassini.
Ele diz que falta uma negociação mais séria: ‘‘Não sei porque o Governo fez isso. Não temos nada contra o Mercosul; apenas achamos que deve haver equalização de custos para um país não prejudicar o outro’’.
Real x CooperativismoGalassini diz que, embora o Plano Real tenha sido ‘‘um sucesso para o Brasil’’, foi prejudicial para a agricultura. ‘‘Nós pagamos a conta. O Governo sabe que é assim’’, afirma. Tirando esse problema, ‘‘a agricultura vem superando a dificuldade’’. Ele prevê que, daqui para frente, ‘‘quem não tem dívidas vai sentir os benefícios do Plano Real. O problema é liquidar as dívidas que ficaram para trás. De modo geral, acho que teríamos que passar por esta fase, porque não tínhamos mais como viver com uma inflação de até 80% ao mês’’.
Ele comenta que a agricultura ‘‘foi e ainda está sendo prejudicada, mas à medida que o tempo passa o Governo vai sentindo isso e vai dando incentivos, como a baixa de juros, a retirada do ICMS na exportação e algumas outras coisas que vão sendo ajustadas’’.
O dirigente cooperativista acredita em dias melhores: ‘‘A saída é ir se adaptando, reduzir custos e aumentar a produtividade, para que possamos ter renda. O Governo precisa evitar a interferência na hora que o produtor vai ter renda. O Governo tem sempre em mente a idéia de produzir alimentos baratos para a população, mas isso tem trazido um peso para a agricultura carregar.’’

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