Tem soro na caixinha de leite
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sexta-feira, 14 de março de 2003
Reportagem Local 
Má notícia para produtores e consumidores. Um terço do leite produzido no Brasil é vendido sem controle. Mas o leite em caixinha também é suspeito
Nos tempos do agronegócio e da rastreabilidade ainda persiste a figura da canequinha para a venda de leite nas cidades do interior brasileiro. A única coisa que mudou foi o meio de transporte: agora a entrega é feita com motos. Mas ainda há os que carregam o galão sobre a velha carroça - puxada por um animal magro e submetido a maus-tratos - que percorre a periferia fazendo a ''entrega a domicílio''. Sob sol quente, a acidez do leite afasta ainda mais o produto dos padrões mínimos de sanidade. Responsáveis por este quadro são a) falta de conscientização do produtor, b) ausência de uma política de proteção à comercialização, c) ausência de um cooperativismo que contemple os interesses dos produtores.
No Paraná o Conseleite - que nasceu dentro da Faep, mas envolve também as indústrias - está mudando esta realidade, apontando o preço justo para o produtor. Através de estudos feitos pelos professores da UFPR, que apuram custos de cada segmento da cadeia do leite, são fixados preços de referência, que garantem a remuneração do produtor.
Mas, para quem acha que este hábito da venda com a canequinha está mudando, um estudo do Ministério da Agricultura, divulgado recentemente, revela uma má notícia: a produção e comercialização informais de leite somam cerca de um terço do que é vendido de leite no Brasil. Cerca de 7 milhões de litros chegam anualmente ao consumidor sem nenhuma inspeção.
Outro engano é achar que fraudes e impurezas existem apenas no chamado primeiro percurso do leite, quando sai da zona rural para as indústrias. As descobertas recentes apontam adulteração - por adição de água ou de soro de leite - no leite longa vida e no leite em pó. A apreensão de embalagens sem data de fabricação também fazem parte dessa constatação do Ministério da Agricultura.
Em Minas Gerais o pesquisador da Universidade de Viçosa, Sebastião Brandão, apurou leite adulterado. Na sua pesquisa, foram analisadas 38 amostras de leite em pó de diversas marcas nacionais. Em 21 delas foram encontradas modificações. Em uma delas, o teor de adição de soro chegou a 60%. Esse tipo de fraude é mais comum entre empresas de pequeno porte - segundo a Agência Folha.
Soro na caixinha - No caso do leite longa vida, muitas vezes o soro usado é resultado da sobra do processamento de queijo. Em poucos dias, a substância se mistura perfeitamente ao leite e somente testes laboratoriais importados conseguem detectar o problema. Já no caso do leite em pó, o procedimento de identificação da fraude é mais fácil de ser encontrado.
Para o consumidor, porém, a diferença entre o leite puro e o fraudado é imperceptível quando o grau de adição de soro não ultrapassa 20%. Acima disso, Brandão afirma que o leite pode ficar com um sabor aguado.
O presidente da Associação Brasileira de Produtores de Leite, Jorge Rubez, encaminhou carta ao Ministério para pedir que intensifique a fiscalização da cadeia do leite. A iniciativa teve o apoio da Confederação Nacional de Agricultura (CNA).


