Tem cheirinho cítrico no ar
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 16 de maio de 2008
Flora Guedes<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Já é sensível o aumento da oferta de tangerina nos mercados e feiras livres, principalmente, para o olfato do consumidor. E o cheiro cítrico e doce da fruta ainda ficará mais intenso. Nesse ano, as altas temperaturas registradas no verão anteciparam o período de colheita no Vale da Ribeira, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), maior produtora paranaense de tangerina poncã. Quatro municípios, basicamente - Cerro Azul, Doutor Ulysses, Itaperuçu e Rio Branco do Sul -, são responsáveis por 84% da produção do Estado, que nesse ano, será 20% maior do que em 2007.
A previsão é que sejam colhidas 9 milhões de caixas de poncã ou 184 mil toneladas, entre os meses de março e agosto. O ápice da colheita ainda está por vir, começa no finalzinho de maio e vai até julho. Os números estimados para 2008 provocam uma reversão no cenário do Vale da Ribeira, que vinha apresentando uma tendência de perda sistemática do volume de produção. Em 2000, a região teve uma safra de 323 mil toneladas de tangerina que foi decrescendo até o ano passado, quando colheu apenas 148 mil toneladas.
''Traz um novo fôlego para o Vale da Ribeira e a expectativa de boa comercialização para os produtores. O aumento se deve a renovação dos pomares, que estão com mais vigor, e também se beneficiou do clima generoso para a maturação da poncã'', avalia Paulo Andrade, engenheiro agronômo da área de fruticultura da Secretaria de Estado de Agricultura e Abastecimento (Seab). Ele acrescenta que os municípios de Adrianópolis e Campo Largo, também na RMC, produzem cerca de 2 mil toneladas de tangerina, cada um.
Em Cerro Azul, município que responde sozinho pela produção de 120 mil toneladas da fruta, a cultura é a principal atividade econômica local. A safra gera 8 mil postos de trabalho diretos em 2,3 mil propriedades, que somam 5 mil hectares de pomares. Só em 2007, foram plantados lá 400 mil novos pés de poncã. ''O tempo bom com chuvas, no verão, esticou o período de colheita para cinco meses, a fruta está mais bonita e doce. Fiz um trabalho de roçado e adubação mais forte, por isso minha produção está bem melhor esse ano'', comemora o fruticultor Odilon Bichelo, 65 anos, que deve colher 20 mil toneladas de poncã do seu pomar com 35 mil pés.
''O preço da caixa começa por R$ 10,00 e daí vai caindo até R$ 3,00, mais para o final da safra, quando a oferta de poncã é grande no mercado'', conta Bichelo. Produtor expressivo de Cerro Azul, Ângelo Platner, 55, também comercializa e transporta a produção de tangerina da região para os estados de Santa Catarina, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul. Os pomares de Platner são uma bela amostra do que se repete nas milhares de propriedades familiares da região. Terrenos com topografia acidentada cobertos com pés carregados de poncã de perder de vista.
''Comecei a produzir laranja com o meu pai e, há 20 anos, tenho minha própria produção, trabalho junto com os meus quatro filhos. Transportar o produto sempre foi um problema para nós, perdemos muita mercadoria porque os caminhões atolavam na estrada. A construção da rodovia trouxe o progresso'', destacou. O citricultor se refere a pavimentação da estrada estadual PR-092, concluída em 2005, trecho que liga Rio Branco do Sul a Cerro Azul e que facilitou o escoamento da produção.
De acordo com o Departamento de Estradas e Rodagem do Paraná (DER-PR), ainda não está prevista a pavimentação de mais 56 quilômetros até Doutor Ulysses. O transporte, no entanto, ainda é um problema para Cerro Azul. Centenas de ''galhos dos produtores'', que são as estradinhas dentro da propriedade, impedem a saída da produção da lavoura até o município, durante os dias de chuva. ''Quando chove, a gente só sai daqui com trator. O barro vermelho atola os caminhões, imagine que são cinco quilômetros até a cidade'', contou Platner.
O secretário de Agricultura, Abastecimento e Meio Ambiente de Cerro Azul, Agenor de Moura e Costa, lembra que maquinário para a lavoura é privilégio de poucos produtores, 95% não possuem essa estrutura. ''O município não tem condições de apoiar todos, não temos recursos e nossos equipamentos e tratores são antigos. Gostaríamos de melhorar as estradas, colocando saibro para o caminhão não patinar na lama, mas estamos falando de uma malha viária rural imensa. Durante toda a safra trabalhamos para nivelar as estradas das propriedades, mas temos apenas três patrolas'', contextualiza Costa.


