Tecnologias para o melhoramento
Cláudia Barberato
De Londrina
Tecnologias como a transferência de embriões e a fertilização in vitro, disponíveis para uso na reprodução animal apenas nesta última década, além de aumentarem o número de descendentes de um acasalamento, auxiliam na programação de melhoramento genético dos rebanhos. Mas a ciência quer mais. Quer a multiplicação de animais geneticamente eficientes e técnicas para a preservação de raças de animais em extinção. Um passo para a clonagem e a transgenia em animais.
Os cientistas já conseguiram clonar ovelhas, bovinos e ratos. Dolly, uma ovelha criada na Inglaterra, foi o primeiro mamífero clonado a partir de células de um animal adulto, em fevereiro de 1997. Em março do mesmo ano, cientistas americanos clonaram macacos a partir de embriões. Em agosto de 1997 uma empresa americana clonou o primeiro bovino a partir de embriões. Em julho de 1998 cientistas de uma universidade do Havaí conseguiram produzir com ratos o mesmo método usado para gerar a ovelha Dolly. Em maio deste ano foi clonado o primeiro mamífero macho, o rato fibro.
No Brasil, uma das tecnologias mais promissoras nesse contexto científico da biotecnologia em reprodução animal, é a fertilização in vitro (fertilização dos óvulos das fêmeas em laboratório). A transgenia e a clonagem ainda demoram a chegar. Mas nem tanto, avisa o pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, de Brasília (DF), Rodolfo Rumpf.
Ganhos genéticosOs estudos da fertilização in vitro foram iniciados nos anos 90 e em 1994 nasceram os primeiros bezerros, produtos de embriões produzidos in vitro. No ano seguinte, em 1995, veio a punção folicular/fecundação in vitro, sendo possível obter cerca de 36 bezerros por ano de uma só vaca doadora. Em 1996 nasceu o primeiro bezerro produzido pela tecnologia e, em janeiro de 1998, os primeiros produtos da mesma tecnologia já em esquema comercial.
Além do aumento do número e da maior velocidade de produção de bezerros, e consequentemente no ganho genético em carne e leite, a produção de embriões in vitro, a partir de material de vacas vivas, traz outros benefícios para a pesquisa e para a produção, garante o pesquisador da Embrapa.
Segundo Rumpf é possível formar um banco de ovócitos e no futuro regenerar raças em extinção, pela fecundação in vitro e a transferência de embriões para vacas doadoras. Será possível também recuperar material genético de vacas que apresentem problemas reprodutivos, produzir embriões de fêmeas imaturas, reduzir intervalos entre gerações, ou até mesmo produzir embriões para produção específica de carne ou leite.
Falta reconhecimento Hoje o conhecimento científico nestas áreas anda acelerado. O conhecimento duplica a cada oito meses, avisa o pesquisador da Embrapa. Por outro lado, segundo Rumpf, o aumento na adoção dessas tecnologias de reprodução animal só não é maior no Brasil pela falta de perspectiva econômica.
Ou seja, o pecuarista não se sente estimulado em investir tanto dinheiro para uma fertilização in vitro, por exemplo, ou outra tecnologia, porque não sabe se terá, no seu produto, uma remuneração que retorne o alto investimento inicial feito.
Custo-benefícioO tipo de tecnologia a adotar vai depender do contexto vivido pelo pecuarista, que deverá analisar muito bem o custo-benefício. Se o objetivo é produzir e vender touros e matrizes na faixa de R$800 a R$1.000, adotando a inseminacão artificial, segundo Rumpf, o pecuarista já terá retorno razoável com a atividade.
Os custos com a transferência de embriões, por exemplo, se justificam para aquele pecuarista que consegue vender seus tourinhos a R$1.500. Se o criador vender as estruturas de embriões por R$2.500 a R$3 mil a fecundação in vitro é a tecnologia mais indicada e viável economicamente.
O que define o custo-benefício no uso de tecnologias de multiplicação animal ou a Biotecnologia da reprodução é o mérito genético dos animais que estão sendo multiplicados, avisa Rumpf. Existem, segundo o pesquisador, várias opções, entre elas a própria clonagem. O que é utopia hoje, dependendo do material genético que se tem para utilizar, pode ser realidade amanhã. Um exemplo é a vaca Húrsola, da raça limousin, que será clonada nos Estados Unidos.
O pecuarista deve pensar quanto vale seu produto e considerar, em função dos resultados e índices técnicos já conseguidos no melhoramento, a viabilidade da adoção dessas tecnologias. Quanto maiores forem os índices positivos, maior será o acesso de outros produtores e os custos irão se reduzindo. Foi assim com a inseminação, embora a prática ainda seja pouco adotada no País (calcula-se que nem 5% do rebanho brasileiro de 160 milhões de cabeças sejam inseminados) e com a transferência de embriões que coloca o Brasil hoje como terceiro no mundo, em volume, na adoção da tecnologia. Segundo Rumpf, por ano, no Brasil, são realizadas em torno de 70 mil transferências de embriões, ficando apenas atrás dos Estados Unidos e Canadá.
O pecuarista, alerta Rumpf, tem que ter claro qual o objetivo do seu trabalho, se é ganhar dinheiro ou difundir genética ou fazer as duas coisas juntas. A transferência de embriões, por exemplo, de uns cinco anos para cá, cresceu muito no País. Antes era preciso comprar fora do País os insumos para a técnica, como meios de uso e hormônios. Hoje já existem no País, embora parte do material ainda seja importado, insumos de boa qualidade para desenvolver a transferência. Com isso. também os custos de produção foram reduzidos um pouco.
Alguns avanços técnicos de resultados também foram aprimorados e deverão continuar a melhorar. Tudo é dinâmico na biotecnologia. O pesquisador aposta também na redução de custos a médio prazo da fertilização in vitro para melhorar o sistema de produção.
Rumpf se diz impressionado com o número de pecuaristas que procuram informação sobre as tecnologias. O produtor brasileiro, especialmente os grandes criadores, estão preocupados em fazer a multiplicação do material genético do seu rebanho. Falta para eles a garantia de que terão retorno do investimento que é tão alto. Qualquer inovação tecnológica no campo da biotecnologia implica em alto investimento e, por enquanto, não se tem uma garantia de que esse custo será pago, já que não existe política adequada de remuneração definida para o setor, depois, na venda do produto final.
Rumpf acredita que tecnicamente as coisas tendem a evoluir cada vez mais no próximo século, mas ainda estaremos esbarrando nas questões econômicas.
Hoje as técnicas disponíveis da biotecnologia, além da inseminação artificial, transferência de embriões e suas correlatas como congelamento, bipartição e sexagem de embriões, a fertilização in vitro e a pulsão folicular, um desafio na prática, está sendo a crioperservação de ovócitos.
A pesquisa trabalha para a técnica de retirar e congelar óvulos das fêmeas para a formação de um banco de óvulos que junto com um banco de sêmen, possibilitará fazer vários acasalamentos.
As técnicas de clonagem e transgenia na pecuária são práticas, segundo Rodolf Rumpf, que deverão ser mais corriqueiras nos próximos 10 anos. A clonagem, na sua opinião vem antes, já que se mostra uma excelente ferramenta para as transgenias, especialmente para uso nos grandes programas de melhoramento genético.
Para a transgênese, segundo o pesquisador, ainda não se sabe como vai acontecer no campo há muito caminho pela frente. A possibilidade futura é ter um banco de células de animais elite e regenerar esses animais através da clonagem.
Critérios de seleçãoAlém da conservação de materiais nos bancos genéticos, o pesquisador explica que deve haver o desenvolvimento de critérios de seleção para os animais que serão doadores. O que se está multiplicando terá que ser, cada vez mais, o melhor e com isso há possibilidade de reduzir custos. Mas isso só será possível se houver preocupação na seleção dos animais. Temos que olhar para o DNA dos animais, utilizando os marcadores genéticos e outros instrumentos.
O trabalho, na verdade, avisa Rumpf, começa na orientação e seleção dos acasalamentos. Não adianta ter uma indústria de biotecnologia avançada e extremamente eficiente, se não houver matéria-prima (os animais) adequada para usar as técnicas.O melhoramento genético caminha rápido, mas a adoção é lenta. Falta perspectiva econômica na remuneração dos produtos
PecuáriaPecuarista se mostra interessado na adoção de tecnologias mas não vê perspectivas econômicas para a venda de seu produto (os animais), depois de um investimento tão alto





