Tecnologias brasileiras aplicadas no Iraque
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de novembro de 2001
Maranúbia Barbosa<br>De Londrina 
O pesquisador da área de genética e melhoramentos da Embrapa Soja, José Francisco Toledo, de Londrina, criou e implantou no Curdistão, região norte do Iraque, um programa para desenvolver cultivo de girassol e empreender pesquisas de soja e milho. O projeto é da Agência das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), e envolve recursos no valor de 3,5 milhões de dólares. Foi iniciado em abril deste ano, e tem o objetivo de garantir a sobrevivência da população curda, que corre o risco de ser dizimada desde a Guerra do Golfo, em 91.
A FAO, segundo Toledo, tem hoje no Iraque 38 pesquisadores que trabalham disseminando novas tecnologias em diversas culturas de grãos. O Iraque integra a antiga Mesopotâmia (região entre dois rios, que são o Tigre e Eufrates), palco do nascimento das primeiros agrupamentos humanos e onde floresceu os rudimentos da agricultura e pecuária. O Oriente Médio, explica, é o centro de origem genética de trigo, cevada e centeio. As variedades primárias desses grãos ainda são muito cultivadas na região. O grão-de-bico também é conhecido e faz parte dos hábitos alimentares, não apenas dos curdos mas de todos os árabes de uma forma geral. O projeto de expansão do girassol, soja e milho, criado por Toledo, é apenas um entre os vários planos de desenvolvimento no Curdistão.
Sucesso com o girassol
O pesquisador da Embrapa aposta no sucesso da cultura de girassol, que é bastante popular entre os curdos. ''Lá existe uma indústria de óleo mas não tem matéria-prima''. Análise de solo, clima e introdução de materiais genéticos modernos foram utilizados para desenvolver as primeiras plantações. A difusão de tecnologia levou em consideração também os métodos tradicionais usados pelos curdos.
Os campos experimentais de girassol da FAO, de 8,5 mil hectares, divididos entre 300 agricultores, comprovaram o que Toledo já previa. De 600 quilos por hectare, a produtividade pulou para 2,2 mil quilos por hectare em áreas irrigadas. Como o índice de chuvas na região é baixo (cerca de 500 mm anuais), a ONU abriu poços artesianos, que suprem as vilas e as plantações. Antes de vir embora para o Brasil, Toledo conseguiu colher a primeira safra de girassol. ''Foi fácil e os resultados indicam que pode ser feito.''
A variedade de girassol que foi levada para o Curdistão, informa Toledo, é chamada de flamme e não é cultivada no Brasil, mas se adaptou bem naquelas condições climáticas e de solo. ''Nosso objetivo é cultivar o girassol sem irrigação para diminuir os custos'', adianta.
Transferindo tecnologia
As estratégias para convencer os agricultores a assimilarem os novos conhecimentos são feitas por produtores rurais que exercem algum tipo de liderança na comunidade. Os líderes se encarregam de levar os agricultores até aos campos experimentais para conhecerem as técnicas desenvolvidas pelos pesquisadores da FAO. Toledo diz que a expectativa é de que dentro de cinco ou seis anos os curdos já estejam aplicando o que aprenderam. ''O passo seguinte será trabalhar para o desenvolvimento sustentável da região'', complementa.
Os agricultores curdos, continua o agrônomo da Embrapa, não conhecem o tipo de cooperativa que é comum no Brasil, mas estão se organizando em grupos, principalmente a partir da presença da FAO na região. A maior parte das terras iraquianas, relata Toledo, está nas mãos do governo, que arrenda e cobra cerca de 30 dólares por ano em área não irrigada e até 300 dólares anuais para lote irrigado. De um modo geral, é comum a existência de pequenas propriedades, de cerca de 20 hectares, onde os curdos plantam um pouco de tudo, para subsistência. Produtos como tomate, abobrinha, pepino, beringela, grão-de-bico quiabo e um pouco de arroz são cultivados e compõem a mesa deles. Adubos, mesmo os orgânicos, são pouco empregados.
Soja é desconhecida
De acordo com Toledo, a soja é praticamente desconhecida no país. A variedade que foi introduzida no programa é de um ciclo longo e novas espécies devem ser testadas. A FAO disponibilizou máquinas extrusoras para que os agricultores possam extrair da soja o farelo. A intenção é promover uma reeducação alimentar junto à população e também empregar a soja como ração para frangos. A pouca quantidade de chuvas, em torno de 500 milímetros por ano naquela região, desfavorece a plantação de milho. Toledo acredita que ''não há lugar para o milho ali''. Mesmo desconsiderando a viabilidade de adaptação, as pesquisas sobre o comportamento da planta vão continuar.
Ainda conforme Toledo, em função do embargo econômico, a maquinaria agrícola iraquiana ficou obsoleta e a FAO passou a adquirir peças de reposição. Nos últimos meses, dada a implantação dos projetos, a FAO está comprando implementos agrícolas novos, o que gerou um impasse. ''Não se sabe a quem pertence a maquinaria''. O governo e associações de produtores devem dividir a tarefa de administrar os bens. A distribuição e o uso equitativo dos implementos para a população será a regra imposta pela FAO.


