Para a pecuária sobreviver, o caminho da aplicação de tecnologia será inevitável, defende o  professor da Esalq/USP,  Fernando Campos de Mendonça
Para a pecuária sobreviver, o caminho da aplicação de tecnologia será inevitável, defende o professor da Esalq/USP, Fernando Campos de Mendonça | Foto: Divulgação

A evolução na lotação de pastagens no Brasil está ligada diretamente à utilização das mais variadas tecnologias. Em 1940, por exemplo, a produtividade no País era de 0,1 a 0,2 UA/ha (unidade animal por hectare). Passou a 0,5 UA/ha com a utilização das forrageiras africanas e agora está em 1 UA/ha. Com a ILP (Integração Lavoura-Pecuária) como reforma de pastagem, é possível chegar a 3 UA por hectare, um crescimento de 200%, segundo as pesquisas, e limite máximo para essa tecnologia. Vale dizer: uma UA corresponde a 450 quilos de peso vivo.

Mas agora, de acordo com o professor do departamento de engenheira de biossistemas da Esalq/USP (Escola Superior de Agricultura Luis de Queiroz/ Universidade de São Paulo), Fernando Campos de Mendonça, a pecuária vive um momento crucial, de mudanças de paradigma. “A pecuária durante muito tempo foi incorporadora de novas áreas e a produtividade continuava baixa, com lotações baixas, sem aumentar o número de animais por área. A agricultura saiu na frente porque (na pecuária) se produz muito pouco sem tecnologia, o que inviabiliza a atividade.”

O pesquisador relata que em sistemas intensivos de produção, áreas mais frias do Centro-Sul por exemplo, é possível chegar a 10 UA por ha. Mais ao Norte do País, com tecnologias de irrigação, 20 UA por hectare. “Num exercício de ficção, se usarmos toda a tecnologia disponível na pecuária reduziríamos a área para 1/3. Com pecuária intensiva, para 1/10. Isso significa sair de 170 milhões de hectares de pastagem para 17 a 18 milhões de hectares, liberando uma enorme área para outras atividade agrícolas. É o que acredito que vai acontecer (não nessas proporções) num futuro de 10 a 20 anos: liberação de área para a agricultura e aumento de produtividade da pecuária.”

Para sobreviver, portanto, o caminho da aplicação de tecnologia será inevitável. Mendonça salienta entretanto que o pecuarista ainda fica numa sinuca de bico: de um lado a resistência devido a própria tradição do negócio e do outro o medo de perder dinheiro investindo em tecnologias que muitas vezes ele não conhece. “Aparece gente todo dia na porteira querendo vender algo e ele não sabe quem está dizendo a verdade. Um tempo atrás, por exemplo, surgiu o calcário líquido em que se gastaria até um décimo a menos que o em pó, o produtor iria gastar menos, e hoje se fala muito pouco disso. São produtos fitossanitários milagrosos, fertilizantes, técnicas de monitoramento, chip para controle do rebanho, sistemas de gestão e ele não consegue tomar conhecimento de tudo isso.”

Uma assistência técnica de confiança, portanto, se torna fundamental, que ajude o produtor a estudar as possibilidades de aplicação. O professor também cita a fala do produtor de leite, Nivaldo Nichetti, sobre como escolher a melhor tecnologia. São três perguntas: essa tecnologia agrega valor? Reduz trabalho? Impacta minimamente o meio ambiente? “Bem, se a tecnologia não agrega valor não faz sentido nenhum. O segundo ponto é diminuir o trabalho dentro de uma equipe e por, fim, impactar menos no meio ambiente, o que é uma propaganda positiva, ainda mais em tempos que o agronegócio está sendo atacado de todos os lados.”

Outro ponto é visitar propriedades de mesmo porte e perfil, em que o pecuarista possa ver se a tecnologia que está querendo implantar está funcionando em outros lugares. “Se alguém quer vender essa tecnologia, pergunte se há locais onde ela já está implementada. Esse é um excelente cartão de visitas.”

Por fim, o pesquisador ressalta como um dos seus trabalhos traz todos os alicerces fundamentais para uma tecnologia fazer sucesso. Junto ao engenheiro mecatrônico, Thiago Alberto Cabral Cruz, trabalha com sistemas automáticos e inteligentes de manejo de irrigação, inclusive em pastagens. “Com uma estação meteorológica e sensores de umidade do solo, é possível monitorar a taxa de aplicação de água de forma variável, sem que o produtor precise regular o controlador. A irrigação também pode ser feita à noite e, se chover, o sistema detecta a chuva e desliga. Quando a precipitação acaba, o sistema mostra se ela foi suficiente e caso não tenha sido, determina que a bomba ligue novamente.”

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