Tecnologia do Paraná para a África
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de janeiro de 1999
Josiane Schulz 
O plantio direto poderá ser um importante instrumento dos agricultores da Namíbia, país localizado no Sudoeste da África, na produção de mais alimentos. Essa é a expectativa do pesquisador da área de solos do Iapar, Ademir Calegari, que esteve naquele país em dezembro, para difundir a tecnologia.
O solo árido é completamente revolvido, perdendo água e matéria orgânicaAtendendo a um convite da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), Calegari ficou durante duas semanas nas regiões de Okawango e Oshakati, no Norte da Namíbia, fazendo palestras, visitando comunidades, pesquisando o solo e estudando as possibilidades de melhorar o manejo.
Aridez e subsistênciaCom solos áridos e temperaturas elevadas, a Namíbia enfrenta escassez de chuvas, que se concentram em no máximo três meses do ano (normalmente de dezembro a fevereiro) e não ultrapassam os 500 mm. É nessa época que as comunidades rurais iniciam o cultivo do milheto, do sorgo e do milho.
NovidadeA matraca foi uma grande novidade para os agricultoresA agricultura praticada no país é de subsistência. As comunidades rurais são estruturas tribais compostas por pequenos produtores extremamente pobres, sem tecnologia, sem assistência e que há milênios trabalham a terra da mesma maneira, conta Calegari. As técnicas de cultivo são rústicas e consistem na roçagem, na queima dos resíduos, na aração do solo com tração animal e no plantio manual.
O objetivo da FAO é buscar alternativas para que essas comunidades produzam mais e amenizem a escassez de alimento. Podemos contribuir muito para isso, diz Calegari, lembrando que o Brasil é um dos países que se destacam no desenvolvimento e aplicação de técnicas conservacionistas. Segundo o pesquisador, o exemplo do Paraná, Estado pioneiro em tecnologias para conservação e recuperação do solo, pode levar muitos benefícios àquele país. Apesar das diferenças de clima e de solo, os princípios e estratégias da prática são aplicáveis no Brasil e também na Namíbia, explica o pesquisador.
Ademir CalegariA máquina de plantio direto para tração animal foi um dos equipamentos levados por Calegari à NamíbiaDesafioO principal desafio, segundo o pesquisador, é convencer os agricultores de que não é necessário revolver a terra. Por ser muito arenoso, não existe compactação de solo, o que facilita o plantio direto. Mas lavrar a terra é uma tradição de muitos anos entre eles, o que cria maior dificuldade, porque, nesse caso, o plantio direto acaba exigindo uma mudança cultural, explica.
Apesar das condições extremamente adversas, Calegari aposta na melhoria do cultivo no país. Segundo ele, é possível consorciar plantas mais rústicas de cobertura com as culturas tradicionais, mantendo assim a umidade do solo e aumentando a quantidade de matéria orgânica. É um trabalho lento, mas que pode dar excelentes resultados.
Arquivo de A.C.Calegari (à direita) observa o manejo utilizado tradicionalmente pelos agricultores da NamíbiaAs técnicas de plantio direto foram explicadas e demonstradas para os agricultores. Vídeos mostraram a experiência de agricultores paranaenses. Calegari levou também alguns equipamentos e sementes de plantas de cobertura, que foram doados às comunidades. Lá praticamente não existe tecnologia. Eles ficaram impressionados ao conhecerem a matraca (semeadeira manual), conta.
Dorico da SilvaAdemir Calegari: plantio direto traz inúmeros benefíciosAs novidades chamaram a atenção dos agricultores, que tiveram boa receptividade. Os chefes de cada tribo demonstraram muita gratidão e pediram que houvesse continuidade desse trabalho. O governo da Namíbia pretende agora, em parceria com a FAO, desenvolver um projeto de incentivo ao plantio direto. É uma tecnologia muito importante e que traz inúmeros benefícios. Acredito que esse foi um passo importante para a melhoria da vida desses povos, diz Calegari.


