A procura de soluções milagrosas para alcançar a lucratividade, apostando no plantio de uma nova gramínea, na criação de uma nova raça bovina que mudará resultados do cruzamento, ou o plantio de variedades ditas mais produtivas, tem feito pecuaristas e agricultores arriscarem em modismos que acabam levando-os ao prejuízo.
A informação, hoje item determinante para lucratividade de todo negócio, em muitos casos não é uma preocupação inicial do produtor. Ele quer reduzir custos, aumentar lucros, mas pouco, às vezes, conhece da sua própria realidade. O alerta foi feito pelo agrônomo Alberto Pereira Gomes Amorim, da PGA Assessoria, Consultoria e Administração, de São Paulo. Amorim foi um dos palestrantes da Conferência Pecuária de Corte no Brasil, realizada no final de março, em São Paulo.
O tema abordado no encontro por Amorim foi ‘‘Tecnologia de Produção: Novas Tendências (aumentando produtividade, reduzindo custos).’’ E, para espanto dos produtores, ele afirmou que as tendências, na verdade, não são novas. Muito menos as técnicas de redução de custos. ‘‘Muitas estão aí a algum tempo, mas falta ao produtor a informação de como adotá-las corretamente, ou até se são viáveis na propriedade.’’
Na ponta do lápisA falta de informação, segundo Amorim, é hoje o principal entrave no gerenciamento da propriedade agrícola. A nova tendência de administração das propriedades manda, de acordo com o agrônomo, que o produtor se informe mais, tenha os dados na ponta do lápis; e saiba o que é custo e o que significa investimento.
Mas, ele avisa que não existe receita aplicada para todas as propriedades de forma geral. O Brasil tem regiões de clima, solo e outras características que mudam num raio de apenas 300 quilômetros. Cada região tem particularidades únicas.
Fora da leiNa atualidade, afirma, é preciso que se conheça a atividade muito bem. Mais de 90% dos pecuaristas não têm, por exemplo, um bom mapa de suas propriedades. ‘‘Documentação legal mesmo, que o coloque de acordo com a legislação de ocupação e uso do solo. Não se conhece a declividade da propriedade. Pela lei, de 1965, que determina as regras de uso do solo, hoje com novas resoluções impostas pelo governo, o pecuarista pode perder o seu negócio, se não estiver cumprindo o determinado’’. A maioria fez declaração ao ITR, às pressas, com informações que não são muito verdadeiras. Hoje estão sujeitos à fiscalização, multas e até a prisão.
Redução de custos‘‘Só é possível reduzir custos em cima de conhecimento, gerenciamento e projetos’’. Só depois de conhecer a propriedade e saber o que é possível fazer ali, também pensando nas leis, é que o pecuarista deverá pensar em adotar tecnologias, reduzir custos, fazer seleção e manejo de rebanho, entre outros. O planejamento técnico e gerencial deverá ter, na opinião de Amorim, a orientação de um técnico especializado. A adoção de tecnologias de produção, genética e seleção de animais melhoradores do rebanho será uma consequência.
‘‘Conhecendo sua propriedade, vai poder adotar o manejo correto dos pastos e planejar reservas de forrageiras para o gado. Aí se fala em gerenciamento pessoal de rebanho e depois de tecnologia, genética e seleção de animais. Neste caso a adoção de tecnologia vai depender da realidade de cada um. Em alguns casos, o mais indicado será usar a inseminação artificial, em outros não.’’
Parceria técnicaEm países como Canadá, Estados Unidos, Nova Zelândia e Austrália, que são usados como exemplo e parâmetro de sucesso na pecuária, de acordo com Amorim, levantamentos indicam que os pecuaristas que têm melhores resultados são também os que mais investem em informação e assessoria técnica de boa qualidade.
‘‘É importante determinar o que é despesa e o que é investimento. O técnico barato, por exemplo, muitas vezes sai caro’’. Um bom técnico, garante o agrônomo, pode ser aquele que aceita ser parceiro na atividade. ‘‘Deve haver um contrato entre técnico e pecuarista onde esteja prevista participação nos resultados, e que seja bom para os dois.’’
Análise de custosHoje a análise de custos do negócio é contaminada por índices sem parâmetros. ‘‘Na análise para redução de custos é importante que os índices de produção e produtividade sejam comparáveis e iguais em todas as fases. Refletir economicamente e financeiramente apenas um índice técnico. Exemplo: desfrute é a quantidade de exportação de matéria-prima/ano/hectare na propriedade e não o número de cabeças. O pecuarista deverá usar uma unidade de produção com uma unidade física. Normalmente não se faz assim. O pecuarista pensa em número de cabeças.’’
Acabou especulaçaõAté 94 a pecuária era tratada como especulação. Vendia-se em dólar e se comprava em cruzeiros. A tecnologia de redução de custos não era primordial neste período. O interesse era ter ganho com o estoque, afirma Amorim. Hoje, garante, funciona ao contrário. O produtor tem que estar com as contas na ponta do lápis, para saber as despesas. ‘‘Se não tiver capacidade analítica apurada, pode estar perdendo dinheiro, e muito dinheiro.’’
A partir de 95, com as mudanças nas regras de mercado, acentuando-se em 96, houve retração e muitos pecuaristas foram obrigados a venderem fêmeas. Hoje isto se reflete no alto preço do bezerro. ‘‘É preciso que o pecuarista tenha consciência de que o sucesso na atividade depende primeiro do gerenciamento, de ficar dentro da lei, e que não seja forçado pela legislação.’’
Com a propriedade estruturada, afirma, terá que pensar, ainda, em fazer parte da cadeia produtiva da matéria-prima. O pecuarista de corte, por exemplo, terá que se integrar na cadeia desde a produção do animal vivo até a venda do quilo da carne ao consumidor. ‘‘Para isso terá que adotar certos manejos na propriedade, como tecnologia de seleção de animais, alimentação, aumento de fertilidade, entre outros.’’
ManejosUm das tendências que estão sendo adotadas em produção de gado de corte é o uso de manejo rotacionado de pastagens. Propriedades do Brasil Central, São Paulo e Paraná já trabalham com manejo rotacionado, técnica que dá maior produção de matéria seca e, por consequência, mais suporte para o animal por hectare/ano.
O uso de touros melhoradores, comprovados, representa grande avanço na atividade do pecuarista. Se ele usar um bom touro por quatro estações de monta na vacada, terá 97% do material genético, caso as filhas sejam reintegradas ao rebanho, feito na sua propriedade.
Falta reprodutorNo Brasil, hoje o mercado de touros demanda 250 mil cabeças. A produção atual não consegue fazer 15 mil animais. Bons programas de provas de touros são desenvolvidos pela Embrapa. ‘‘Há também uma empresa privada que tem feito um ótimo trabalho’’. Outro exemplo, citado por Amorim, é o trabalho da associação de criadores de brangus; ‘‘uma raça que não faz recorde nacional de preços em leilões, mas que tem obtido bons reprodutores ao longo de provas, um exemplo que deve ser seguido por outras associações de criadores.’’
Amorim afirma que o uso de touros melhoradores é uma das formas de reduzir custos de produção, usando material genético de boa qualidade. Também o desmame precoce dos bezerros é uma alternativa. Não sobrecarrega a fêmea, que logo entra de novo, rapidamente, em seu ciclo produtivo. Por outro lado deverá haver suporte para o bom desenvolvimento do bezerro a fim de que consiga entrar em idade reprodutiva no primeiro ano e parirem, no caso das fêmeas, no segundo ano de vida. Em estados como Goiás, Mato Grosso, Rio Grande do Sul e Paraná já se adota a desmama precoce, para menor estresse da reprodutora. Os bezerros são tratados no sistema creep-feeding ou uso de ração líquida.

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