Tecnologia, a chave contra a pobreza
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 13 de julho de 2001
Diego Cevallos Interpress 
A tecnologia pode ser a chave mestra contra a pobreza, em um mundo onde a renda de 1% da população mais rica equivale à de 57% mais pobre, diz o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), em seu Relatório sobre Desenvolvimento Humano 2001. São necessários acordos, investimentos internacionais e regulamentação do mercado para que os avanços em medicina, agricultura e comunicações se canalizem para o combate aos problemas dos pobres e para que não seja aprofundado o abismo social, ressalta o documento do PNUD, apresentado no México, país que a agência da ONU considera líder potencial em tecnologia. Os avanços tecnológicos não estão isentos de riscos, como é o caso dos alimentos transgênicos, mas isso não anula a sua validade como instrumento de desenvolvimento.
O relatório repete a classificação de 162 países em desenvolvimento humano. Agora, a lista é liderada pela Noruega, Austrália e Canadá, enquanto Serra Leoa, onde a expectativa de vida é de 39 anos, figura no último lugar. Os países melhor colocados na tabela de desenvolvimento humano ocupam, ao mesmo tempo, postos destacados quanto ao novo índice de adiantamento tecnológico divulgado pelo PNUD no relatório deste ano e que é liderado pela Finlândia e Estados Unidos, aparecendo Sudão e Moçambique nos últimos lugares.
A Internet, os avanços em biotecnologia agrícola e as novas gerações de produtos farmacêuticos que chegam ao mercado apontam para uma aliança entre tecnologia e desenvolvimento, disse Mark Malloch Brown, administrador-geral do PNUD. Todavia, há que remar contra a maré para conseguir que a tecnologia se democratize e beneficie os pobres, acrescenta o relatório. Os progressos em tecnologia farmacêutica, agrícola e da rede mundial de computadores se concentram hoje em uns poucos países, e quase sempre resolvendo problemas e necessidades alheias às nações mais pobres.
O documento afirma que 10% das pesquisas sobre saúde no mundo, por exemplo, se destinam a 90% da carga mundial de enfermidades. Enquanto 54,3% da população dos Estados Unidos têm acesso à Internet, no resto do mundo, onde poderia representar instrumento fundamental em educação a distância, apenas 6,7% a têm. Há outras tecnologias mais antigas que também não chegam aos pobres. A eletricidade, com mais de 100 anos, continua sendo inacessível para um terço da população mundial. Ademais, há 2 milhões de pessoas que carecem de medicamentos essenciais, entre eles a penicilina. Os 29 países da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômicos (OCDE), representando 14% da população mundial, concentram 85% das patentes científicas e das pesquisas publicadas nos meios especializados. Esses mesmos países investem uma média de 2,4% de seu produto interno bruto em pesquisas, enquanto no resto do mundo essa proporção não chega a 1%.
Segundo o relatório, muitos países em desenvolvimento têm grande responsabilidade no crescimento do abismo tecnológico, por não adotarem políticas coerentes e por não destinarem fundos para pesquisas. Os países da África subsaariana, os mais pobres do mundo, destinaram, em 1999, US$ 7 bilhões à compra de armamentos.
O relatório do PNUD, redigido por um grupo de especialistas depois de demoradas pesquisas e de um intenso cotejo de informações, sustenta que é hora de os países ricos e grupos privados aportarem mais recursos e conhecimentos na luta contra a pobreza. A tecnologia pode trazer desenvolvimento e ajudar no cumprimento das metas mundiais contra a pobreza, mas, sem políticas inovadoras, poderia ser apenas uma fonte de exclusão e não um instrumento de progresso.


