Tudo começa com o manejo das matrizes nas estufas para a coleta dos ovosProjeto conjunto das Fazendas Araucária, de Londrina, e Belmonte, de Rolândia, está implantando um sistema inédito no País em termos comerciais: a produção de alevinos através da incubação de ovos em estufas. Testada até agora apenas em duas universidades do Rio Grande do Sul, a técnica está sendo utilizada para reprodução de tilápias.
Por enquanto, o projeto está funcionando de maneira limitada na Araucária, produzindo entre 500 e 700 mil alevinos por mês. Nas próximas semanas, porém, deve entrar em funcionamento a estrutura montada na Fazenda Belmonte, que terá capacidade para colocar no mercado 50 milhões de alevinos/ano, mais da metade da produção total do Paraná que atinge hoje 93 milhões de alevinos anualmente. Segundo o produtor Brasílio Santo Frighetto esta produção deve ser alcançada nos próximos três anos.
Ele explica que com o projeto em pleno funcionamento, a propriedade de Londrina vai funcionar como um banco genético, de onde sairão as matrizes para formar novos plantéis. ‘‘O banco genético é o coração da piscicultura. Dele depende a produção de materiais bons ou ruins’’, acredita.
Retirados da boca da matriz, os ovos são encaminhados para o laboratório
Reversão totalA tecnologia da incubação de ovos em estufas foi trazida da Tailândia, e a escolha da tilápia, peixe típico daquele país, é justificada por seu crescente consumo, além de ser uma espécie precoce, com maior resistência a doenças e de grande versatilidade. A principal vantagem da técnica em relação ao sistema adotado pela maioria dos piscicultores hoje em dia é a possibilidade de reversão sexual total, obtida através da manipulação de hormônio nas larvas (fase anterior à formação dos alevinos). A reversão sexual é um manejo indispensável para a produção comercial de tilápias.
O processo de reversão tradicional não é tão eficiente, permitindo a sobrevivência de um grande número de fêmeas em cada lote que provoca uma superpopulação no plantel, na medida em que elas se reproduzem muito rapidamente. Os filhotes passam a disputar espaço e alimento com os adultos, prejudicando seu crescimento. ‘‘A tecnologia em uso atualmente trabalha com a coleta de larvas, que devem ser submetidas à reversão com até cinco dias. Só que, nesta fase, é muito difícil definir com exatidão a idade em que estão’’, lembra o técnico em piscicultura Claudio Luís Batirola, que dá assistência ao projeto Estação de Piscicultura Araucária Belmonte.
Assim que nascem, as larvas já começam a receber hormônio masculino para a reversão sexual
Pela nova técnica, o trabalho todo começa com o manejo das matrizes nas estufas para a coleta dos ovos, que elas guardam dentro da boca. Em seguida os ovos são levados para o laboratório, onde permanecem incubados de cinco a sete dias, até eclodirem as larvas. Neste momento já começam a receber a ração enriquecida com hormônio masculino, permanecendo no laboratório por mais cinco dias. Após este período, as larvas retornam para as estufas por cerca de 25 dias, onde crescem e se transformam em alevinos prontos para o comércio.
As estufas, segundo Claudio, servem basicamente para aquecer a água, mantendo um bom controle ambiental, e impedir a invasão de outros peixes. Além de constantemente abrigados, os filhotes permanecem em água com temperatura superior à externa, dentro de ‘‘apas’’ (berçários feitos de tela e lona plástica). Na Araucária foram montadas três estufas, totalizando 2,4 mil metros quadrados: uma para reprodução de alevinos, outra para reprodução de matrizes e uma terceira destinada à reversão.
Milton DoriaEficiênciaBrasílio Frighetto alimenta os alevinos nas ‘‘apas’’: primeiros resultados mostram alta produção
Boas perspectivasA estrutura que está sendo montada na Fazenda Belmonte vai contar, logo de início, com 5 mil metros quadrados de estufas, podendo ser ampliada caso os resultados sejam realmente os esperados. ‘‘Nós começamos a utilizar esta técnica em janeiro, e pelo que pudemos perceber até agora, a quantidade de peixes aumenta em uma velocidade assustadora’’, empolga-se Brasílio Santo Frighetto, proprietário da Fazenda Araucária.
Frighetto trabalha com piscicultura quatro há anos, e já construiu inclusive um pesqueiro na propriedade, que fica no distrito do Espírito Santo. Além da tilápia, trabalha com pacu, carpas húngara e chinesas (capim, cabeça grande e prateada), bagre, piauçu e alguns híbridos, como o tambacu. ‘‘Estamos pensando em começar, ainda este ano, a produzir pintado e alguns brycons, como a piraputanga, piracanjuba e matrinch㒒, revela.
Na opinião do piscicultor, a criação de peixes está se firmando cada vez mais como uma boa opção de renda na propriedade, ‘‘e não mais um simples lazer’’. Por isso, segundo ele, o comércio de alevinos está em franca expansão. A produção resultante do projeto conjunto entre as duas fazendas deverá ser comercializada no País e, em breve, também no Exterior.

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