Tanques-rede tornam represas produtivas
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 31 de agosto de 2001
Carolina Avansini<BR>De Londrina 
A piscicultura em tanques-rede, espécie de gaiolas de tela equipadas com bombas flutuantes colocadas dentro de lagos, é uma excelente opção para aproveitar áreas alagadas pela construção de usinas hidrelétricas. A opinião é do engenheiro de pesca Luiz Eduardo Guimarães de Sá Barreto, o ''Lula'', da Emater.
''Antes da formação da represa, essas regiões eram agricultáveis e produziam alimentos para a população. Por isso, devem ser melhor utilizadas'', comentou ele, que presta assistência técnica a produtores de Sertaneja (63 km ao norte de Cornélio Procópio) que praticam esse tipo de criação.
Com propriedades localizadas às margens da represa Capivara, no Rio Paranapanema, os piscicultores informaram que os peixes não entram em contato com o solo, possuem mais oxigênio disponível e vivem em um ambiente equilibrado, o que garante melhores condições de desenvolvimento e uma carne mais tenra e saborosa. Entre as dificuldades identificadas, apontaram o custo de produção, de 20% a 30% maior que nos tanques de terra e a comercialização, atualmente restrita aos pesque-pague. Nas ''gaiolas'' de Sertaneja, a principal espécie criada é a tilápia.
Maior produtividade Segundo Lula, um tanque-rede com capacidade de cinco metros cúbicos é suficiente para produzir 500 quilos de peixe a cada safra. Para obter a mesma quantidade em um tanque de terra, seria necessária uma estrutura de mil metros quadrados, que ocuparia um espaço de 50x20 metros.
Ele também informou que os tanques-rede permitem o desenvolvimento mais rápido dos peixes. Colocados com peso entre 20 e 100 gramas, os alevinos levam de três a seis meses para atingir o peso mínimo de 400 gramas, ideal para a comercialização. Nos tanques de terra, os animais levam de seis a oito meses para atingir o mesmo peso.
Outra recomendação diz respeito à qualidade genética, que deve ser superior para criação em tanques-rede. Para isso o produtor deve adquirir os alevinos de empresas que possam garantir sua procedência. ''Como o peixe está em ambiente estressante, fechado e com alta densidade, a genética precisa ser boa, caso contrário, os peixes crescerão menos, ocasionando prejuízos para o produtor'', diz o técnico.
O manejo da criação é simples. Segundo Lula, o produtor precisa alimentar os animais três vezes por dia, no mínimo, com ração extrusada (flutuante). Na hora da despesca, os peixes são retirados das ''gaiolas'' com uma caixa e colocados nos caminhões próprios para o transporte, pertecentes aos compradores.
Investimentos Na criação em ''gaiolas'', o custo de produção é de R$1,20 a R$1,30 por quilo de peixe, valor de 20% a 30% superior que nos tanques de terra. O engenheiro de pesca explicou que a demanda por recursos é maior porque nos tanques-rede, os peixes se alimentam exclusivamente de ração, enquanto nos tanques de terra, os produtores fazem adubação da área para gerar alimentos naturais. Atualmente, o quilo da tilápia está sendo comercializado a R$1,80.
Para explorar a pesca em ''gaiolas'', o produtor necessita ter uma área na beira do lago e desembolsar R$500, em média, para cada tanque-rede. ''Para instalar 30 gaiolas, é preciso investir R$15 mil'', exemplifica. Os tanques devem ser colocados em área de remanso (sem ventos fortes) com profundidade mínima de 2,5 metros. Lula recomenda localizar a exploração em regiões distantes de condomínios habitacionais, pois o barulho das lanchas e jet-skys utilizados pelos moradores podem estressar os peixes, diminuindo a produtividade.
Experiência Antônio Marcon Filho já praticava a piscicultura em tanques de terra, mas há um ano decidiu ampliar a atividade para as ''gaiolas''. Proprietário de cem tanques-rede na represa Capivara, ele obtém 50 mil quilos de peixe a cada quatro meses. ''Os alevinos são colocados com 40 gramas e retirados com o peso mínimo de meio quilo'', informou.
Comparando as duas modalidades, ele garantiu que os peixes criados no lago crescem mais rápido, por causa das condições ambientais.''Tem mais oxigênio e o pH é equilibrado'', disse o produtor, que investiu aproximadamente R$90 mil no negócio.
Proprietário de 52 tanques, Sérgio Gambini lembrou que a possibilidade de criar um grande número de peixes num espaço reduzido também conta pontos para os tanques-rede. ''O manejo é mais fácil'', disse, acrescentando que o risco de doenças e o nível de estresse dos animais é menor.
Dificuldades O zootecnista Ricardo Almeida também possui 10 tanques-rede em Sertaneja, além de cuidar de 20 ''gaiolas'' de outro criador. Há três anos e meio na atividade, ele considera a remuneração ''razoável'', mas aponta três principais problemas enfrentados pelos piscicultores. Em primeiro lugar, ele citou o preço da ração, cotada no valor médio de R$580. A cada seis meses, ele utiliza 18 toneladas de alimento para obter 12 toneladas de peixe. ''É muito caro.''
Outra dificuldade é a falta de alternativas de comercialização, atualmente restrita aos pesque-pague. ''Como não há vias de saída, não temos como aumentar a produção'', argumentou. Por fim, ele afirma ser difícil encontrar peixes juvenis para comprar no mercado. ''E quando existem, são muito caros. Como eu não crio alevinos em tanques de terra, como fazem alguns produtores, enfrento problemas para comprá-los'', explicou.
Serviço: Mais informações sobre os tanques-rede podem ser obtidas na Emater de Assaí, pelo telefone (43) 262-1223 ou pelo e-mail [email protected] . A tecnologia também será exposta na 4 Exposição Agropecuária e Indústrial de Cornélio Procópio, que se encerra amanhã na Sociedade Rural da Região de Cornélio Procópio (BR 369-km 83, a 69 quilômetros de Londrina).


