Às vésperas de mais uma reunião do Conselho Estadual de Sanidade Animal (Conesa), órgão ligado à Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento (Seab), na próxima segunda-feira, em que a pauta principal provalmente será a preparação do Estado para se tornar área livre de febre aftosa sem vacinação, muitas dúvidas ainda circulam pelas propriedades dos pecuaristas. Entre os benefícios da medida, como a entrada da carne paranaense em novos mercados, e o temor de que a ação seja frustrada e traga prejuízos, quem está envolvido com o setor quer saber se o Paraná realmente está preparado para assumir os riscos dessa medida.
Quais os impactos técnicos e econômicos? Qual a previsão de crescimento da exportação da carne paranaense? Se houver impacto negativo quem vai arcar com esse ônus? Quais as ações de manutenção desse status a curto, médio e longo prazos? E qual será o impacto na vida do consumidor?
O virologista Amauri Alfieri, professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), afirma que a suspensão da vacina vai expor o rebanho paranaense. Na opinião dele, se outorgado pelo Ministério da Agricultura (Mapa), o status de área livre de aftosa sem vacinação será uma conquista a ser comemorada, porém com muita cautela. Daqui três ou quatro anos, acrescenta, quando houver uma população completamente não vacinada, os animais estarão totalmente suscetíveis ao vírus. ''E quando se tem focos da doença em rebanhos vacinados é possível controlar o problema mais facilmente, mas o contrário é muito difícil. Sem vacinação, o vírus se alastra como rastilho de pólvora'', reforça o especialista.
Para Alfieri, se conquistado o status, a vigilância epidemiológica terá que ser bastante rígida. E a preocupação do virologista é a de que as ações - de adequação do Estado, como a construção de novas barreiras sanitárias - estejam sendo apenas imediatistas, sem estratégias de médio e longo prazos. ''Quando se fala em sanidade animal e em defesa sanitária não pode pensar só no momento atual, tem que pensar nos anos seguintes. E nós temos o péssimo hábito de esquecermos dessas coisas'', observa o virologista. A manutenção de barreiras, o aparelhamento desses locais, a preparação dos técnicos (que precisam de constantes atualizações), treinamento de exercícios de mitigação de riscos, tudo isso custa dinheiro, é muito caro, acrescenta o especialista.
O temor do virologista é de que dependendo da administração e da situação financeira do Estado, os investimentos no setor podem ser maiores ou menores. ''E se não houver mais vacinação os cuidados deverão ser redobrados, os investimentos constantes e aumentados. Porque vírus não tem partido político, não interessa quem está no governo'', pontua.
Impactos econômicos
O pecuarista José Eduardo de Andrade Vieira, ex-ministro da Agricultura, concorda que esse passo que o Estado poderá dar é muito importante mas não pode ser uma decisão política. Vieira acrescenta que há ainda muita desinformação e que ninguém quer que o Paraná seja prejudicado. ''O status será interessante se houver ganhos para os produtores e a Seab tem que mostrar isso com dados. Esse ganho precisa ser justificado'', frisa.
A medida, afirmou, precisa ser tomada com base em levantamentos econômicos e questionou se o rebanho paranaense será suficiente para o consumo interno e como ficará o trânsito de animais, já que o Estado importa grande quantidade de bezerros do Mato Grosso do Sul.
O presidente da Sociedade Rural do Paraná, Gustavo Andrade e Lopes, observa que a entidade apoia essa evolução do Estado, mas confirma que é preciso esclarecer melhor os impactos técnicos e econômicos dessa medida. Em solicitação feita à Seab, a entidade questiona, entre outros detalhes, quais serão as ações em caso de ocorrência da doença, quais serão os impactos para o produtor, uma vez que o trânsito de animais ficará restrito, qual o volume de circulação de exemplares e se o Estado é autossuficiente.
''Se houver benefícios, maravilha. Mas se houver impacto negativo, quais serão as políticas de compensação?'', questionou Lopes. Segundo ele, como resposta a Seab informou que esses dados serão repassados durante reunião do Conesa, na segunda-feira. O representante do Conesa, Aurélio Menari, disse que esses números já foram repassados para os 37 conselheiros na reunião extraordinária do órgão, em março, e que como se tratava de muitos dados não teria como repassá-los para a reportagem.
De qualquer forma, dados da própria Seab apontam que entre janeiro e abril deste ano foram exportados 9,7 mil toneladas de carne, somando US$ 31,7 milhões. No Brasil, no mesmo período, foram 517,3 mil (t) e US$ 1,8 bilhão, respectivamente. A exportação do Estado representa apenas 1,8% da brasileira. Se uma das apostas da secretaria é a de que com o status a exportação do Estado vai aumentar, o trabalho nesse sentido terá que ser bastante forte.

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