Já foi o tempo em que produzir com eficiência era garantia de dinheiro no bolso do agricultor. Muito competentes dentro da porteira, os produtores apostaram nos avanços da tecnologia para buscar produtividades cada vez maiores. Tiveram sucesso, mas agora pagam um alto preço pela falta de visão estratégica do negócio rural.
Os tratoraços têm mostrado nada mais do que a eterna dependência do setor produtivo em relação aos recursos governamentais. Dados da Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) apontam que, só no primeiro semestre deste ano, foi gasto R$ 1 bilhão em apoio à comercialização de produtos agrícolas. Mais de 9 milhões de toneladas de grãos foram atendidas diretamente pelos programas de equalização.
O milho foi o produto que mais se beneficiou com as ações de apoio este ano. No total, já foram comercializadas 4,3 milhões de toneladas do grão, ou R$ 436,9 milhões. A soja também recebeu forte apoio neste primeiro semestre, com 3,1 milhões de toneladas comercializadas ou R$ 201 milhões em prêmios.
Em todo o ano passado foram pagos R$ 1,2 bilhão em prêmios e apoiadas 5,1 milhões de toneladas de grãos para garantir renda ao produtor. O aumento do apoio em 2006, tanto em valores quanto em volume, se deve a três fatores: a valorização do real, com reflexos nas cotações internas dos produtos exportáveis; as dificuldades de liquidez enfrentadas pelos produtores rurais e o aumento do custo do frete, resultado da elevação do preço do petróleo e deficiências de infra-estrutura das rodovias brasileiras.
Apesar de saber que só a produtividade não garante o sucesso com a atividade agrícola, os produtores continuam acompanhando as inovações da pesquisa. A família do agricultor Gilberto Carlos Peruzi, de Cambé, é exemplo disso. Ele cultiva 720 alqueires de grãos em conjunto com o pai, irmãos, tios e primos e dribla a crise investindo em tecnologia. ''Tentamos fazer o que tem que ser feito: manter os investimentos na lavoura para garantir a produtividade'', afirma.
Mesmo com dívidas a quitar e poucos recursos para destinar à safra, Peruzi diz que não vai correr atrás de sementes mais baratas e irá caprichar na adubação. Apostando no uso da mão-de-obra familiar para reduzir custos, o produtor ainda não precisou se desfazer de áreas de cultivos ou maquinários, nem pensa em abandonar a atividade em decorrência da crise.
Outra solução encontrada para garantir altas produtividades foi contratar uma assistência técnica particular para auxiliar no gerenciamento da propriedade, desde o plantio até a colheita. Com o auxílio do consultor ele também espera obter melhores preços na comercialização da safra. ''Hoje ganhamos na quantidade produzida'', diz.
Nas últimas safras, Peruzi tem vendido o que colhe para pagar as dívidas e guardado o restante para reinvestir na propriedade. Graças à produção tecnificada ele produz em média 132 sacas de soja/alqueire, 370 sacas de milho/alqueire e 122 sacas de trigo/alqueire tem obtido lucro. ''Não é a primeira crise que enfrentamos, só está demorando mais para passar'', lamenta.

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